sábado, 17 de janeiro de 2026

Urgência sob o sol. Flávia Oliveira

O Globo

A preocupação com moradores em situação de rua é imensa, bem como com trabalhadores de ofício ao ar livre

Enquanto Brasília, a partir do Legislativo, do Supremo Tribunal Federal (STF), do Tribunal de Contas da União (TCU), dá sinais claros do desejo de manter na sombra o escândalo do Banco Master — que o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que pode ser “a maior fraude bancária da História” —, parte do país derrete sob o sol. As ondas de calor extremo no verão que nem completou um mês já causam impacto no sistema de saúde, no abastecimento de água e energia elétrica, no mercado de trabalho, na educação e no meio ambiente. Brasil afora, Rio de Janeiro em particular, são perceptíveis os efeitos das mudanças climáticas: vendavais no Sul, chuvarada em São Paulo, calor inclemente na metrópole carioca.

Não faltam problemas no território fluminense, mas nada tem batido o calorão como assunto mais comentado da temporada. As temperaturas elevadas às vésperas do Natal levaram 450 pessoas por dia a unidades municipais de saúde. O secretário municipal da área, Daniel Soranz, contou que a maioria dos atendimentos se relacionava a queimaduras de segundo e terceiro graus provocadas pela exposição ao sol. Os riscos às pessoas com comorbidades, crianças e idosos são apontados diuturnamente pelos especialistas. Quem trabalha, circula, se submete às temperaturas extremas está em perigo. As praias, ocupadas até a madrugada, chegaram ao ponto de inviabilizar o trabalho de limpeza da Comlurb. O prefeito Eduardo Paes foi às redes sociais pedir a colaboração dos banhistas.

A estação do turismo traz oportunidades de trabalho, renda, atividade econômica. E abusos — no plural. A praia inflacionou em todo o litoral brasileiro. Há um par de anos, ganhou ímpeto nas redes o repúdio a uma proposta de legislação que transferiria a estados, municípios e ao setor privado a propriedade dos terrenos de Marinha, faixas de terra de orla, rios e lagos influenciadas pelas marés. A perspectiva de cerceamento do acesso público às áreas fez os brasileiros se levantarem contra a tal PEC das Praias. Parafraseando o poeta Castro Alves: “A praia é do povo como o céu é do condor”.

Não é aceitável que brasileiros e estrangeiros sejam constrangidos ao recusarem, roubados ao consumirem, agredidos ao questionarem o abuso dos empreendedores da areia, formalizados ou não, como tem acontecido em balneários do Sudeste e do Nordeste. Governadores e prefeitos, sobretudo no Rio, adoram anunciar, quando a primavera se aproxima, operações de segurança pública para pôr ordem nas praias na estação seguinte. Tratam basicamente de efetivo policial suficiente para inibir a chegada de moradores de áreas periféricas aos territórios de IPTU mais alto, que recebem a brisa do mar.

Na rádio CBN, uma ouvinte elencou estratégias que vem usando para obter um tanto de conforto térmico sob o sol que, nesta semana, produziu máxima de 41,4oC em Santa Cruz, na Zona Oeste. Ela entra em agência bancária, farmácia, hipermercado, shopping center refrigerados. Especialistas também já sugeriram museus e cinemas. A Cedae tem distribuído água gelada em áreas de grande circulação.

A preocupação com moradores em situação de rua é imensa, bem como com trabalhadores de ofício ao ar livre. Protetor solar, chapéu, boné, roupas com proteção UV tornaram-se itens de primeira necessidade. Energia elétrica e abastecimento regular de água já eram. Mas a falta de luz recorrente, que sempre exauriu moradores de áreas de menor renda, agora tortura até quem vive nos bairros da elite carioca — os geradores espalhados pelo Leme, na Zona Sul, não deixam dúvidas.

A desigualdade que marca a sociedade se faz presente também no calorão. Passageiros sofrem no transporte público, alunos sucumbem em salas sem refrigeração. O Ministério Público conseguiu na Justiça que o governo do Rio apresente em até 60 dias — e implante em 30 — um plano contra a precariedade térmica nas unidades de ensino. Por aqui, a aprendizagem é afetada pela violência armada, pela insuficiência de vagas e pessoal e, agora, até pelo calor. A Redes da Maré, ONG com atuação nas 15 comunidades do bairro, apresentou um conjunto de propostas para viabilizar os 200 dias letivos em favelas, como manda a lei. De 2016 até o ano passado, estudantes da Maré perderam 163 dias em razão de confrontos a bala, sobretudo, operações policiais. A injustiça climática é ameaça adicional.

Sete dezenas de árvores adultas foram arrancadas do terreno do extinto Instituto Bennett, no Flamengo, para dar lugar a um residencial. O que era verde virou deserto. No mesmo mês, a Prefeitura do Rio lançou, via serviço 1746, a solicitação de plantio de mudas. Em 15 dias, o número de pedidos somou metade da média de um ano, mil ligações. Os campeões foram bairros da Zona Norte, conhecida ilha de calor da cidade. A população demonstra saber que não dá para ser feliz sob calor extremo. Este ano tem eleição.

 

Nenhum comentário: