Folha de S. Paulo
Operação produziu investigações e condenações
sem precedentes, elevando o custo esperado da corrupção
Desdobramentos também desencadearam uma
contrarreação política e institucional
O debate sobre corrupção costuma oscilar entre duas explicações rivais. A mais tradicional entende o problema como resultado de incentivos individuais: agentes públicos e privados se envolvem em práticas ilícitas quando os benefícios esperados superam os riscos de punição. Inspirada na economia do crime, essa perspectiva sustenta que o combate à corrupção exige elevar os custos do comportamento ilegal. Se a probabilidade de detecção aumenta, e as sanções se tornam críveis, a corrupção deixa de ser uma estratégia racional.
Uma abordagem alternativa, desenvolvida por
Bo Rothstein, sustenta que a corrupção sistêmica funciona como um problema
de ação
coletiva. Quando a maioria acredita que "todos são corruptos", agir
honestamente passa a ser arriscado e até irracional. O empresário que se recusa
a pagar propina perde contratos; o servidor que segue as regras pode ser
isolado. Nesse contexto, a corrupção se transforma em um equilíbrio social
sustentado por expectativas compartilhadas. O problema deixa de ser apenas
punir indivíduos e passa a ser coordenar mudanças simultâneas nas crenças
coletivas.
Essa diferença teórica tem implicações
relevantes para políticas públicas. Estratégias baseadas apenas em punição
tendem a produzir resultados limitados quando enfrentam sistemas nos quais
normas informais legitimam práticas ilícitas. Rothstein argumenta que reformas
anticorrupção eficazes frequentemente exigem mudanças institucionais rápidas e
abrangentes —uma espécie de "big bang" reformista— capazes de
sinalizar que as regras do jogo mudaram de forma irreversível. Experiências
como Hong Kong e Singapura ilustram essa lógica, assim como o exemplo histórico
dos países escandinavos. No século 19, Suécia e Dinamarca eram marcadas por
clientelismo e patrimonialismo. A transição para Estados mais íntegros ocorreu
com as transformações que alteraram simultaneamente instituições e expectativas
sociais.
Isso não significa que punições sejam
irrelevantes. Sanções críveis podem funcionar como catalisadores de mudança
institucional, sinalizando que comportamentos ilícitos deixarão de ser
tolerados. Mas o ponto central é que, isoladamente, o aumento de penalidades
raramente desmonta sistemas de corrupção enraizados. A Lava Jato produziu
investigações e condenações sem precedentes, elevando dramaticamente o custo
esperado da corrupção. Mas também desencadeou uma contrarreação política e
institucional de setores empresariais, políticos e da comunidade
jurídica latu senso. O elo que só agora emerge com grande clareza é o
que envolve advogados e magistrados nesta contraofensiva (como antecipei
há quase dois anos aqui).
Um exemplo, dentre muitos, basta: Dias Toffoli viajou
em jatinho com o advogado do Banco Master,
que atuou na Lava Jato como defensor da Odebrecht. Ele, logo depois, foi
secretário Nacional de Justiça quando, monocraticamente, o ministro anulou
todas as provas de acordo de leniência da empresa e suspendeu multa no valor de
R$ 10 bilhões estipulada no acordo de leniência da J&F. O
contra-ataque à Lava Jato não foi motivado por irregularidades e desvios
processuais, que não só continuaram a existir, mas se multiplicaram e
aumentaram de escala.

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