Folha de S. Paulo
Crônica de João do Rio em 1908 já descrevia o
Carnaval carioca como um pandemônio
'Atrás de nós', disse ele, 'um grupo de
futuras glórias nacionais berrava as cantigas do dia'
"Era em plena rua do Ouvidor. Não se podia andar. A multidão apertava-se. Havia sujeitos congestos, mulheres afogueadas, crianças a gritar, tipos que berravam pilhérias. A pletora de alegria punha desvarios em todas as faces. Era provável que, do largo de São Francisco à rua Direita, dançassem vinte cordões e quarenta grupos, rufassem duzentos tambores, zabumbassem cem bombos, gritassem cinquenta mil pessoas.
"A rua convulsionava-se, como se fosse
rebentar de luxúria e de barulho. A atmosfera pesava como chumbo. No alto,
arcos de gás besuntavam de uma luz de açafrão as fachadas dos prédios. Nos
estabelecimentos comerciais, nas redações dos jornais, as lâmpadas elétricas
despejavam sobre a multidão uma luz ácida e galvânica, que envilidecia e
parecia convulsionar os movimentos da turba, sob o panejamento multicor das
bandeiras que adejavam e sob o esfarelar constante dos confetes, que, como um
irisamento do ar, caíam, voavam, rodopiavam.
"Essa iluminação violenta era ainda
aquecida pelas vermelhidões de incêndio e as súbitas explosões azuis e verdes
de fogos-de-bengala; era como que arrepiada pela corrida diabólica e incessante
dos archotes e das pequenas lâmpadas portáteis. Serpentinas riscavam o ar;
homens passavam empapados d’água; mulheres de chapéu de papel curvavam as nucas
à etila dos lança-perfumes; frases rugiam cabeludas, entre gargalhadas, risos,
berros, uivos, guinchos.
"A rua personalizava-se, tornava-se
única, e parecia, toda ela policromada de serpentinas e confete, arlequinar o
pincho da loucura e do deboche. Nós íamos indo, eu e o meu amigo, nesse
pandemônio. Atrás de nós, sem colarinho, um grupo de rapazes acadêmicos,
futuros diplomatas e futuras glórias nacionais, berrava furioso a cantiga do
dia, essas cantigas que só aparecem no Carnaval."
O que você acabou de ler foi um trecho de "Cordões", crônica de João do Rio na Gazeta de Notícias, reproduzida em seu livro "A Alma Encantadora das Ruas", de 1908. Eu também gostaria de ter vivido aquele Carnaval.

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