Valor Econômico
A remontagem da chapa presidencial vai muito
além da troca de Alckmin por Renan Filho e passa pela digestão do MDB
Com a afirmação de que o vice-presidente
Geraldo Alckmin tem um papel a cumprir em São Paulo, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva tirou do bastidor a especulação sobre a remontagem de sua chapa.
Trazer o debate à luz do dia, porém, não é suficiente para desinterditar os
dois principais problemas trazidos pela saída do PSB e a entrada daquele que,
hoje, é o partido mais provável para substituí-lo, o MDB.
Tirar Alckmin da chapa não é o problema. O nó é fazê-lo disputar o governo de São Paulo. Hoje o maior projeto do PSB é eleger o prefeito do Recife, João Campos, ao governo de Pernambuco. Para isso, o partido quer o apoio lulista e não a neutralidade defendida pela atual governadora, Raquel Lyra (PSD). Em 2010, Lula apoiou tanto o pai de João, Eduardo Campos, que se elegeu, quanto o senador Humberto Costa, que ficou em terceiro lugar, atrás do deputado federal Mendonça Filho (União-PE).
O acordo (quase) de cavalheiros que marcou
aquela eleição não se reproduz este ano, visto que a disputa, de tão agressiva,
cobrará caro de João e Raquel, duas das mais promissoras lideranças da política
nacional. É a réplica do caritó, depósito em que se criam caranguejos. Quando
um tenta subir, um outro puxa sua pata.
Com um PSB tão dependente assim de João
Campos, fica fácil para Lula impor seu preço. Outra coisa é obrigar Alckmin a
disputar em São Paulo. Os ministros têm se queixado a boca pequena de que Lula
não tem discutido o cenário eleitoral de cada um. Determina seu rumo e não se
fala mais nisso.
O presidente tem falado abertamente que as
duas bandas do eleitorado estão consolidadas entre lulismo e bolsonarismo e que
o número de votos em disputa capaz de decidir a parada é pequeno. Por isso, e
pela necessidade de barrar a maioria pró-impeachment no STF do Senado, precisa
que os palanques regionais puxem sua votação e não o inverso.
Que Lula precisa de Alckmin para a missão em
São Paulo, é fato. Que o presidente possa determinar o rumo do seu vice da
mesma maneira que fez com a ministra das Relações Institucionais, Gleisi
Hoffmann, encaminhada para uma duríssima disputa pelo Senado paranaense, é
outra história. No PSB, dá-se por certo que, sem a cadeira de vice, Alckmin
volta para Pindamonhangaba.
No governo, reconhece-se que Alckmin não se
dispõe a encarar, ante o favoritismo do governador Tarcísio de Freitas, a
disputa pelo cargo que já ocupou quatro vezes, mas acalenta-se a esperança de
que, no limite, discutiria o Senado, deixando a disputa pelo governo para quem
dela não conseguir se livrar, os ministros Fernando Haddad ou Simone Tebet.
Todo esse desgaste se justificaria para
colocar, na chapa, um nome do MDB, mais provavelmente o ministro dos
Transportes, Renan Calheiros Filho. Sua Pasta divide com a de Portos e
Aeroportos a responsabilidade por ter feito esta gestão Lula ter ultrapassado
todos os governos das últimas três décadas em número de concessões de
infraestrutura.
É um “tarcisismo de resultados” aliado à
capacidade mais desenvolta de toda a Esplanada para a disputa política. No mais
recente de seus vídeos, Renan Filho cruzou os mil quilômetros que separam o
porto de Paranaguá (PR) de Pelotas (RS) inaugurando obras e desafiou o
governador de Santa Catarina e candidato à reeleição, Jorginho Mello (PL), se
ele seria capaz de mostrar que o governo Jair Bolsonaro fez mais estradas que o
de Lula.
Vindo de um dos menores Estados do Brasil,
cujo eleitorado é inferior ao da Zona Leste de São Paulo, e de uma região que
já é tradicionalmente mais lulista que o resto do país, os atributos de Renan
Filho são de outra ordem. A disputa política em que mostra habilidade é esta de
tirar a discussão do campo ideológico para cotejar aquilo que, de fato, saiu do
papel - e não apenas em obras, vide o fim do cartório de autoescolas na
obtenção da CNH.
Seria um nome mais talhado para o que Lula, à
luz do dia, chama de “guerra” eleitoral, do que a plácida figura de Geraldo
Alckmin. A aposta seria a de que, ultrapassada a ameaça à democracia, teria
chegado a hora de a frente ampla ceder a vez ao pragmatismo das realizações.
É uma aposta que comporta seus riscos vez que
deve haver uma parcela do eleitorado mais confortável em votar num Lula que, se
reeleito, deixará o poder com 85 anos, tendo um vice como Alckmin a avalizar
uma chapa com um Calheiros, a despeito das evidências de que o filho usa menos o
fígado e mais planilhas que o pai.
Lula não discutiu a troca com Alckmin, mas já
pediu para Renan Filho não disputar novamente o governo de Alagoas. O problema
vai além. Um vice do MDB teria que passar pela convenção de uma sigla com
lideranças como o governador Ibaneis Rocha (DF) ou o prefeito de São Paulo,
Ricardo Nunes, que nunca pestanejaram no apoio a Bolsonaro contra Lula e
trabalhariam ao limite para impedir que o partido endossasse a chapa com o PT.
Não bastasse a ala bolsonarista do MDB,
predomina hoje uma visão, transversal no partido, de que Lula 3 se comporta
como a ex-presidente Dilma Rousseff, no sentido de que acredita ser capaz de se
cercar de um cordão sanitário para não ser tragado por temas como Master e
aquinhoados. Na definição de um emedebista que já teve vários assentos na
Esplanada nas últimas décadas, Lula, antes de entabular uma conversa com o MDB,
tem que estar ciente de que para negociar com um partido que tirou Dilma 2 do
poder tem que renunciar a ser Dilma 3.

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