CartaCapital
Como as sanções de Washington a juízes e
promotores emperram o funcionamento do TPI
Pouco mais de um ano após a chegada de Donald Trump ao poder, as sanções adotadas pelo presidente dos Estados Unidos contra as Cortes internacionais e os relatores de direitos humanos asfixiam a Justiça e revelam a ambição da Casa Branca em garantir uma absoluta impunidade das atrocidades cometidos em Gaza. Ao longo dos meses, o republicano adotou medidas contra procuradores e juízes do Tribunal Penal Internacional que “ousaram” denunciar Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, por crimes de guerra e contra a humanidade. As sanções abalaram o funcionamento do organismo, o acesso ao e-mail, viagens, pagamento de salários e a própria investigação contra os suspeitos.
Fontes em Haia confirmaram que, de fato, as
sanções tiveram um profundo impacto na capacidade de operação de um dos únicos
tribunais no mundo com mandato para lidar com os crimes mais graves perpetrados
por governos.
Ainda nas primeiras semanas do governo Trump,
a ação contra o procurador-geral Karim Khan pegou muitos de surpresa. A principal
acusação era de que o britânico agiria contra os interesses dos EUA e de
Israel, ao pedir a prisão de Netanyahu. Imediatamente, os funcionários do
tribunal foram alertados a evitar viagens aos EUA, sob o risco de prisão.
Havia, porém, um problema imediato a ser resolvido: como preservar as provas
contra os indiciados, pois o sistema contratado pela promotoria estava sob a
guarda de uma empresa norte-americana, a Microsoft. Por duas semanas, o
trabalho na Corte se concentrou em imprimir milhares de páginas de provas e
evidências e evitar a possibilidade de o material desaparecer na internet. Um
dos temores era a ameaça do governo dos EUA de punir cidadãos ou entidades que
dessem “apoio financeiro, material ou tecnológico” a qualquer alvo das sanções.
A Microsoft suspendeu, por exemplo, as contas de e-mail de Khan. Em junho
passado, a empresa afirmou manter contato com a Corte desde fevereiro, por
causa do “processo que resultou na desconexão de funcionários sancionados”.
Outra medida adotada pelo tribunal foi
antecipar o pagamento de salários em seis meses, na esperança de fugir de
eventuais punições ao quadro geral de servidores, não só ao procurador-geral.
Por anos, o tribunal havia optado por levar a Haia alguns dos maiores
especialistas dos EUA para trabalhar em seus departamentos. Alertado por um
advogado, um norte-americano que ocupava a direção de uma das divisões da
promotoria simplesmente desapareceu do escritório. Outros compatriotas pediram
demissão, enquanto aqueles que permaneceram criaram um sistema de operação pelo
qual não teriam mais contatos com os alvos de sanção.
As viagens da promotoria aos EUA para
reuniões no Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, foram inviabilizadas.
Em maio do ano passado, Khan viu-se obrigado a participar de uma deliberação
sobre a Líbia por videoconferência, por conta do cancelamento de seu visto.
Para a Anistia Internacional, as sanções
reduzem a chance de se fazer “justiça a todas as vítimas para as quais o TPI é
o último recurso”. Diz a organização: “As sanções prejudicarão todas as
investigações do TPI, não apenas aquelas às quais o governo dos EUA se opõe.
Elas impactarão negativamente os interesses de todas as vítimas que buscam
justiça no tribunal em todos os países onde ele conduz investigações, incluindo
aquelas que os EUA ostensivamente apoiam, por exemplo, na Ucrânia, Uganda e
Darfur”.
A ofensiva levou ativistas a abrir processos
contra o governo Trump na Justiça dos Estados Unidos. Ainda em 2025, dois
defensores dos direitos humanos argumentaram que as sanções contra Khan violam
os direitos garantidos pela Primeira Emenda, devido à proibição de cidadãos
norte-americanos fornecerem serviços ou apoio material ao procurador-geral do
TPI.
Trump visa enterrar as investigações sobre os
crimes de Israel em Gaza
Os problemas só pioraram nos últimos meses.
Atualmente, 11 integrantes da Corte, incluídos magistrados e subprocuradores,
estão sujeitos a punições da Casa Branca. Um deles é o juiz francês Nicolas
Guillou, que em recente coletiva de imprensa explicou como sua vida virou um
pesadelo depois de votar a favor do indiciamento de Netanyahu.
Guillou e família estão proibidos de entrar
em território norte-americano e enfrentam restrições financeiras na Europa. A
maior parte dos cartões de crédito está bloqueada, assim como serviços digitais
que envolvam empresas norte-americanas. “O cerne é a proibição de qualquer
pessoa física ou jurídica dos EUA prestar ou receber serviços de alguém
sancionado”, resumiu.
A situação financeira dos alvos foi abalada.
Alguns bancos, mesmo fora dos Estados Unidos, simplesmente passaram a rejeitar
a abertura de contas de quem entrou na lista negra de Washington. Guillou
citou um caso específico: a reserva de um hotel na França feita por meio da
Expedia, agência de turismo, foi cancelada horas depois.
Outro alvo é a relatora especial da ONU para
o território palestino, Francesca Albanese. Nos últimos anos, a italiana
denunciou os crimes em Gaza e usou o termo “genocídio” para descrever o que se
passava no enclave. Desde então, o trabalho de Albanese passou a ser cerceado,
enquanto aliados da Casa Branca se juntaram à campanha de difamação que visa
destituí-la do posto. Em um comunicado conjunto, mais de 30 relatores especiais
das Nações Unidos alertam para o fato de que os ataques à colega não são ações
meramente pessoais, mas coletivas e estruturais. “A perseguição à relatora não
pode ser dissociada dos crimes internacionais hediondos e das violações dos
direitos humanos perpetrados contra os palestinos, bem como dos esforços de
longa data para deslegitimar aqueles que defendem seus direitos”, anotaram. “O
preconceito e as ameaças enfrentados pelos defensores dos direitos humanos,
sejam acadêmicos, integrantes da sociedade civil, funcionários da ONU ou
especialistas, refletem uma estratégia mais ampla de silenciamento da
dissidência e de proteção de estruturas de poder abusivas contra o escrutínio
público.” •
Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital,
em 04 de março de 2026.

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