quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A milícia no banco dos réus, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Investigação escancara ligação entre política, polícia e crime organizado no Rio

O julgamento do caso Marielle levou ao Supremo uma realidade conhecida dos cariocas: a ligação entre política, polícia e crime organizado.

A Procuradoria-Geral da República expôs a conexão dos irmãos Brazão, acusados de encomendar o assassinato da vereadora, com grupos armados que dominam territórios nas zonas Norte e Oeste do Rio. Esses laços não são novos. Já haviam sido mapeados pela CPI das Milícias, concluída em 2008.

Depois daquela investigação, o clã continuou a expandir seu poder. Domingos Brazão, que era deputado estadual, foi alçado a conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Chiquinho Brazão, então vereador, chegou a Brasília como deputado federal. Agora os dois estão presos, mas o sobrenome continua na ativa. Manoel Inacio Brazão, que não é citado no caso Marielle, exerce o segundo mandato na Assembleia Legislativa.

Além de garantir votos, as milícias ajudaram a família a enriquecer à margem da lei. Segundo a PGR, os irmãos Brazão faturaram alto com a grilagem de terras nas regiões de Jacarepaguá e Rio das Pedras. Acumularam ao menos 87 imóveis, num esquema que envolvia uso de laranjas e falsificação de documentos.

Os pistoleiros eram recompensados com proteção política e nacos da máquina pública. A Polícia Federal descobriu que Domingos Brazão pendurou a mulher de um miliciano na folha de pagamentos da Alerj. Preso há dois anos, o conselheiro ainda recebe salário do TCE. Neste mês, seu contracheque chegou a R$ 56 mil brutos, incluindo R$ 14 mil em penduricalhos.

Para a Procuradoria, Marielle Franco foi morta porque enfrentou as milícias e se tornou um risco para os negócios do clã. A vereadora do PSOL pagou por não se render a uma estrutura de poder corrompida, que aposta na intimidação e no cinismo para se perpetuar.

Ontem o advogado de Chiquinho Brazão, Cleber Lopes, tentou naturalizar a convivência de detentores de mandato com o crime. “Quem faz política no Rio e nunca pediu voto para traficante ou para miliciano que atire a primeira pedra”, disse. Hoje a Primeira Turma do Supremo pode dar uma resposta a quem acha isso normal.

 

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