O Estado de S. Paulo
A irracional reação nativista, potencializada em 2016 com o Brexit e a vitória de Donald Trump, sabidamente implicou novo e inédito recuo das formas da política
Uma percepção bem difundida, não só entre nós, é que a grande política bateu de vez em retirada, deixando-nos impotentes diante de círculos opacos de poder. Elites globais e nacionais, ou boa parte delas, parecem desfalcadas das personalidades que outrora indicavam rotas seguras em meio às tempestades. Este é um momento em que todos – liberais, conservadores, socialistas – temos motivos reais de queixa e frustração, que não poupam ninguém que se identifique com cada uma dessas áreas clássicas da política moderna.
Não se trata só de lamento subjetivo. A
natureza não tolera o vazio, que logo se povoa de fatos e personagens sombrios
– os “magnatas da corrupção” ou, ainda, os equívocos figurantes de fenômenos
como a Epstein class, que perpassa variados países com suas redes de poder,
violência e abusos de toda a sorte. Pior ainda: o quadro de degradação
incendeia a imaginação populista que também está por toda a parte, a partir da
poderosa matriz trumpista.
Para contar melhor a história, convém voltar
aos anos da globalização aparentemente irreversível dos anos 90 do século
passado. A bipolaridade havia desaparecido com o fim do desafio sistêmico
representado pela URSS. Foram anos de intensa e extensa mundialização do
capital, acentuando a interdependência entre povos e países numa escala jamais
vista. O “doce comércio” parecia cumprir seu destino de suavizar conflitos e
contradições, e anunciar, ainda que tendencialmente, a paz e a prosperidade
para todos.
Nesse primeiro momento, não ficaram claros “os riscos da globalização extrema”, para utilizar a frase de Mark Carney, o primeiro-ministro canadense que com rara propriedade expôs recentemente as raízes do nosso mal-estar. A economia avançava de modo cego, sem criar automaticamente instituições políticas à altura. A ideia de mercado como critério absoluto relegava a política a plano secundário, limitada, se tanto, às fronteiras de cada país. O movimento das coisas, tumultuoso e autônomo, acontecia acima da vontade dos indivíduos e das instituições, enfraquecidas, estas últimas, de modo deliberado.
Impossível não recordar, a propósito, termos
e argumentos que assinalam aquela euforia. Digamos simplificadamente que era um
mundo sem esquerda – uma, a comunista, inapelavelmente derrotada; outra, a social-democrata,
sem o viço de antes, quando constituíra um dos motores decisivos do welfare
state. Muito fácil, por isso, apregoar slogans com uma grande dose de soberba,
como o there is no alternative, o Tina de Margaret Thatcher. Ou, também, na
fórmula reducionista de Ronald Reagan, a ideia de que o governo – assim como a
política, a deliberação consciente dos cidadãos – eram sempre o problema, nunca
a solução.
O vocabulário tradicional da sociologia
marxista ainda tem valor em casos como este. Segundo tal vocabulário, os quase
30 anos de mundialização acelerada desenharam um projeto “economicista” que,
não obstante a apreciável criação de riqueza e os saltos tecnológicos, mais
cedo ou mais tarde iria atingir seu limite. No momento fatal das crises
financeiras e das recessões, e mais tarde da pandemia, o globalismo econômico
apareceria como desvinculado de controles que, segundo seus críticos da nova
direita, só poderiam ocorrer no plano nacional – um plano a que, por definição,
estavam alheias as elites neoliberais.
A irracional reação nativista, potencializada
em 2016 com o Brexit e a vitória de Donald Trump, sabidamente implicou novo e
inédito recuo das formas da política. Explorando a fragmentação induzida pela
sociedade digital, o moderno populismo reativa a ideia de um líder – um
condottiere, um messias – como expressão de uma unidade imaginária afirmada
contra o pluralismo democrático. Internamente, em cada contexto, as novas
direitas empreendem insólito regime change, buscando substituir a democracia
política pelo mando cesarista. Externamente, por coerência, retomam o realismo
bruto avesso a qualquer cooperação e entendimento, ainda que insuficientes ou
provisórios.
Como destacou o cientista político Paulo
Fábio Dantas, Mark Carney, com a clarividência dos políticos do passado, terá
sido um dos primeiros, se não o primeiro, a proclamar a necessidade de modos
variados de aliança entre “potências médias”, além do vetusto
terceiro-mundismo. Essencial para Carney é que, na equação progressista, não
pode faltar o Ocidente democrático que resiste e de que, por origem e vocação,
nosso País faz parte.
Não tem sentido trocar a liderança norte-americana por outra – uma troca que não cancelaria os riscos de uma realidade de disputas abertas ou latentes entre superpotências. Uma delas, de modo afrontoso, “monetiza continuamente suas relações”, encerrando-se num horizonte sem princípios. A outra, pela sua constituição autocrática, também está distante de encarnar alguma nova configuração do “espírito do mundo” mais democrática e inclusiva. Ao contrário, a perspectiva canadense, lance inesperado de grande política, abre para nós, brasileiros, espaço razoável de manobra e protagonismo.

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