domingo, 22 de fevereiro de 2026

A política depois do vazio, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

A irracional reação nativista, potencializada em 2016 com o Brexit e a vitória de Donald Trump, sabidamente implicou novo e inédito recuo das formas da política

Uma percepção bem difundida, não só entre nós, é que a grande política bateu de vez em retirada, deixando-nos impotentes diante de círculos opacos de poder. Elites globais e nacionais, ou boa parte delas, parecem desfalcadas das personalidades que outrora indicavam rotas seguras em meio às tempestades. Este é um momento em que todos – liberais, conservadores, socialistas – temos motivos reais de queixa e frustração, que não poupam ninguém que se identifique com cada uma dessas áreas clássicas da política moderna.

Não se trata só de lamento subjetivo. A natureza não tolera o vazio, que logo se povoa de fatos e personagens sombrios – os “magnatas da corrupção” ou, ainda, os equívocos figurantes de fenômenos como a Epstein class, que perpassa variados países com suas redes de poder, violência e abusos de toda a sorte. Pior ainda: o quadro de degradação incendeia a imaginação populista que também está por toda a parte, a partir da poderosa matriz trumpista.

Para contar melhor a história, convém voltar aos anos da globalização aparentemente irreversível dos anos 90 do século passado. A bipolaridade havia desaparecido com o fim do desafio sistêmico representado pela URSS. Foram anos de intensa e extensa mundialização do capital, acentuando a interdependência entre povos e países numa escala jamais vista. O “doce comércio” parecia cumprir seu destino de suavizar conflitos e contradições, e anunciar, ainda que tendencialmente, a paz e a prosperidade para todos.

Nesse primeiro momento, não ficaram claros “os riscos da globalização extrema”, para utilizar a frase de Mark Carney, o primeiro-ministro canadense que com rara propriedade expôs recentemente as raízes do nosso mal-estar. A economia avançava de modo cego, sem criar automaticamente instituições políticas à altura. A ideia de mercado como critério absoluto relegava a política a plano secundário, limitada, se tanto, às fronteiras de cada país. O movimento das coisas, tumultuoso e autônomo, acontecia acima da vontade dos indivíduos e das instituições, enfraquecidas, estas últimas, de modo deliberado.

Impossível não recordar, a propósito, termos e argumentos que assinalam aquela euforia. Digamos simplificadamente que era um mundo sem esquerda – uma, a comunista, inapelavelmente derrotada; outra, a social-democrata, sem o viço de antes, quando constituíra um dos motores decisivos do welfare state. Muito fácil, por isso, apregoar slogans com uma grande dose de soberba, como o there is no alternative, o Tina de Margaret Thatcher. Ou, também, na fórmula reducionista de Ronald Reagan, a ideia de que o governo – assim como a política, a deliberação consciente dos cidadãos – eram sempre o problema, nunca a solução.

O vocabulário tradicional da sociologia marxista ainda tem valor em casos como este. Segundo tal vocabulário, os quase 30 anos de mundialização acelerada desenharam um projeto “economicista” que, não obstante a apreciável criação de riqueza e os saltos tecnológicos, mais cedo ou mais tarde iria atingir seu limite. No momento fatal das crises financeiras e das recessões, e mais tarde da pandemia, o globalismo econômico apareceria como desvinculado de controles que, segundo seus críticos da nova direita, só poderiam ocorrer no plano nacional – um plano a que, por definição, estavam alheias as elites neoliberais.

A irracional reação nativista, potencializada em 2016 com o Brexit e a vitória de Donald Trump, sabidamente implicou novo e inédito recuo das formas da política. Explorando a fragmentação induzida pela sociedade digital, o moderno populismo reativa a ideia de um líder – um condottiere, um messias – como expressão de uma unidade imaginária afirmada contra o pluralismo democrático. Internamente, em cada contexto, as novas direitas empreendem insólito regime change, buscando substituir a democracia política pelo mando cesarista. Externamente, por coerência, retomam o realismo bruto avesso a qualquer cooperação e entendimento, ainda que insuficientes ou provisórios.

Como destacou o cientista político Paulo Fábio Dantas, Mark Carney, com a clarividência dos políticos do passado, terá sido um dos primeiros, se não o primeiro, a proclamar a necessidade de modos variados de aliança entre “potências médias”, além do vetusto terceiro-mundismo. Essencial para Carney é que, na equação progressista, não pode faltar o Ocidente democrático que resiste e de que, por origem e vocação, nosso País faz parte.

Não tem sentido trocar a liderança norte-americana por outra – uma troca que não cancelaria os riscos de uma realidade de disputas abertas ou latentes entre superpotências. Uma delas, de modo afrontoso, “monetiza continuamente suas relações”, encerrando-se num horizonte sem princípios. A outra, pela sua constituição autocrática, também está distante de encarnar alguma nova configuração do “espírito do mundo” mais democrática e inclusiva. Ao contrário, a perspectiva canadense, lance inesperado de grande política, abre para nós, brasileiros, espaço razoável de manobra e protagonismo.

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