O Globo
A maior parte do Brasil passou o carnaval pensando no que fazer na folga, na programação dos blocos de sua cidade ou na classificação das escolas de samba na Sapucaí. No Supremo Tribunal Federal (STF), foram dias de tensão sem trégua. Os ministros ainda nem tinham digerido o trauma provocado pela reunião secreta em que obrigaram Dias Toffoli a deixar a relatoria do caso Master quando Alexandre de Moraes mandou que a Polícia Federal (PF) batesse à porta de quatro servidores da Receita e do Serpro em plena Terça-feira Gorda, numa operação para combater o “possível vazamento indevido de dados sigilosos de Ministros do Supremo Tribunal Federal, do procurador-geral da República e de seus familiares”.
Em tese, Moraes defendeu o tribunal, portanto
era de esperar que a operação fosse bem recebida por seus pares. Na prática,
não foi bem assim. Mesmo os que costumam apoiar suas investidas se incomodaram
por não terem sido avisados de que ele mandara a Receita averiguar se houve
acessos ilegais aos dados de mais de cem pessoas, entre ministros e seus
parentes. Se havia suspeita de violação, por que Moraes não os avisou?
Os mais arredios passaram a suspeitar que o
ministro incluíra toda essa gente na apuração para disfarçar seu objetivo real
— descobrir se alguém havia aberto a declaração de imposto de renda de sua
mulher, Viviane, e vazado a informação a jornalistas. Ou pior: que buscasse
informações para se proteger do avanço das investigações. Afinal, não se sabe
ao certo o que o celular de Daniel
Vorcaro ainda guarda sobre ele, e Moraes até agora não explicou para
que, afinal, serviu o contrato de R$ 130 milhões do Master com o
escritório de Viviane.
Toda essa reação demonstra não só o tamanho
do buraco em que o caso Master jogou o Supremo, mas também quão profundo se
tornou o fosso entre o tribunal e a sociedade. As falas dos ministros na
reunião secreta em que se decidiu pelo afastamento de Toffoli são sintomáticas.
Em vez de discutir a essência do problema que
os colocou naquela situação — a descoberta de uma pilha de indícios de que
Toffoli e Vorcaro tinham uma relação promíscua e uma negociação mal explicada
de R$ 35 milhões —, os ministros passaram a maior parte do tempo espinafrando a
PF e especulando sobre as razões por que o diretor Andrei Rodrigues havia
apresentado um relatório sobre o assunto ao STF. Pelo jeito, para os supremos,
seguir o que manda a lei e comunicar a descoberta de indícios de crime a quem
de direito não é motivo suficiente.
Numa das falas mais enfáticas, Flávio Dino classificou
o documento da PF como “lixo jurídico”:
— Este problema é político. O ministro pegou
uma causa bilionária de R$ 55 bilhões e um negócio dele lá com um fundo de R$
16 milhões é o problema do país? É óbvio que esse não é o problema do país.
Isso é para encobrir os interesses dos grandes empresários.
Tanta convicção sobre eventuais motivações
extra-autos revela muito mais sobre o STF que sobre um relatório que ninguém,
nem Toffoli, contestou publicamente. O mesmo se pode dizer sobre a descrição da
reunião publicada pelo site Poder 360 ter sido tão precisa que os ministros
passaram a suspeitar de que tinham sido gravados — e pelo próprio Toffoli.
Em tese, gravar uma reunião secreta do Supremo
e vazar à imprensa também configura violação do sigilo funcional, tanto quanto
surrupiar uma declaração de imposto de renda para entregar a jornalistas. Mas
essa suspeita nenhum dos ministros fez questão de transformar em investigação.
Nesse contexto, não deveria ser surpresa
Alexandre de Moraes recorrer ao inquérito das fake news para apurar mais um
fato em que ele é ao mesmo tempo vítima, investigador e juiz. Aberto em 2019
por Toffoli para apurar outra suspeita de violação de sigilo, desta vez de suas
mulheres advogadas, o inquérito já poderia ter sido encerrado quando o próprio
Moraes concluiu não haver mais motivo para continuar a investigação e mandou
reintegrar os servidores investigados.
Ou, ainda, quando a então procuradora-geral
da República pediu seu arquivamento, por entender que Moraes desrespeitara “o
devido processo legal” ao tocar a apuração para apurar a disseminação de fake
news sem consultar o Ministério Público.
No fundo, a razão por que o inquérito das
fake news continua aberto e é usado por Moraes para fazer o que bem entende é a
mesma por que Tofolli julgou não haver problema em continuar comandando o caso
Master. Pouco importa que a população esteja contra o Supremo, como disse Cármen
Lúcia, ou que alguns de seus atos possam ser questionados à luz da
Constituição. Ao que parece, conta mesmo só aquilo que Dino definiu na tal
reunião vazada como “STF Futebol Clube”. O resto é confete.

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