Valor Econômico
No curto prazo, dólar pode chegar perto de R$
5, mas proximidade das eleições e volatilidade externa podem levar a moeda a
subir, especialmente no segundo semestre
O fortalecimento do real em relação ao dólar continua neste ano, num cenário em que a moeda americana perde força no mercado global e o Brasil é um dos emergentes favorecidos pelo movimento de diversificação de parte das carteiras dos investidores internacionais. O juro alto por aqui também tem contribuído para a valorização do câmbio. Na sexta-feira, o dólar fechou em R$ 5,1758, a cotação mais baixa desde maio de 2024. No ano, a queda é de 5,7%; em 12 meses, de 9,26%.
Um real mais forte ajuda a controlar a
inflação, especialmente de bens industriais e alimentos, o que pode abrir
espaço para cortes maiores da Selic. A taxa está em 15% ao ano, o que equivale
a cerca de 10% em termos reais, descontando a inflação esperada para os
próximos 12 meses, um nível elevadíssimo. Num ano de eleições e de volatilidade
no cenário global, porém, os analistas não apostam, pelo menos por ora, numa
moeda brasileira mais apreciada no fim do ano, ainda que no curto prazo o dólar
possa cair para a casa de R$ 5.
No acumulado do ano até o dia 13 deste mês,
as entradas de dólares superam as saídas em US$ 6,6 bilhões, segundo números do
Banco Central (BC) para o fluxo cambial contratado. O canal financeiro está
positivo em US$ 6,041 bilhões e o comercial, em US$ 514 milhões. Os recursos
estrangeiros têm alimentado a alta da bolsa brasileira - o Ibovespa sobe 18,25%
no ano. Os juros nas alturas também atraem parte do capital externo, que vem
para aproveitar a diferença entre as taxas externas e internas.
Mas o cenário global é o principal fator a
explicar a valorização da moeda brasileira. As incertezas provocadas pelas
políticas do presidente dos EUA, Donald Trump, têm levado os investidores a
realocar parte de seu dinheiro em outros mercados, como o Brasil. O índice DXY,
que compara o dólar com uma cesta formada por euro, iene, libra, dólar
canadense, coroa sueca e franco suíço, está em queda de pouco mais de 8% em 12
meses. O enfraquecimento da moeda americana e esse movimento de diversificação
de carteira dos investidores internacionais têm o Brasil como um dos
beneficiados, como apontam os economistas do Bradesco, em relatório.
O consenso do mercado para o dólar por aqui,
contudo, não têm se alterado. No Boletim Focus, do BC, as estimativas apontam
há 18 semanas para uma cotação de R$ 5,50 no fim deste ano. Um ponto a ver é se
esse consenso recuará nos dados do Focus a serem divulgados hoje, uma vez que o
dólar continua em queda, tendo fechado abaixo de R$ 5,20 na sexta-feira.
A consultoria Logos Economia trabalha com uma
moeda americana um pouco mais fraca para o fim de 2026, projetando R$ 5,35. Com
esse câmbio, a previsão para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo
(IPCA) neste ano é de 4%, segundo o economista Fábio Romão, sócio da Logos. Se
o dólar for mais baixo, a inflação deve ser menor. Nas contas de Romão, se a
moeda americana fechar 2026 em R$ 5,20, o IPCA ficaria em 3,8%; se terminar em
R$ 5, cairia para 3,7%. Em 2025, o indicador foi de 4,26%, abaixo do teto da
banda de tolerância da meta, de 4,5%, mas acima do centro do alvo, de 3%.
Um real mais forte poderia abrir espaço para
cortes maiores da Selic, avalia Romão, que vê a taxa em 12,25% ao ano no fim de
2026. A expectativa do mercado é que o BC comece a cortar os juros na reunião
de março do Comitê de Política Monetária (Copom). Um câmbio mais apreciado se
juntaria a um crescimento global menor, que implica preços de commodities mais
baixos, formando um cenário mais favorável a reduções mais fortes da Selic.
Romão, porém, tem sido relativamente
cauteloso em relação a revisões para baixo do IPCA deste ano. Segundo ele, o
repasse dos cortes de preços dos combustíveis na refinaria para a bomba tem
sido pequeno ou inexistente, e o fenômeno climático El Niño pode pressionar a
formação de preços de alimentos no segundo semestre. Para completar, haverá
eleições neste ano. “Isso poderá desvalorizar o câmbio sobretudo entre julho e
outubro”, diz Romão. Caso o dólar fique em R$ 5,50 no fim do ano, o IPCA
ficaria em 4,1%, nas projeções da Logos. Essas estimativas, no entanto, podem
mudar, a depender do que ocorrer com outros itens importantes para a inflação,
como serviços e preços administrados (caso de tarifas públicas, por exemplo).
No curto prazo, parece haver espaço para uma
queda adicional do dólar por aqui. Se o ambiente externo permanecer favorável
para mercados emergentes nos próximos meses, a moeda americana pode se
aproximar de R$ 5. Um ponto é que o cenário global continua volátil,
principalmente por causa da imprevisibilidade de Trump. E se o Federal Reserve
(Fed, o BC americano) for mais cauteloso na condução da política monetária, o
ambiente global ficará menos benigno para os emergentes.
Além disso, a proximidade das eleições
presidenciais pode causar alguma instabilidade nos preços dos ativos
brasileiros, tornando mais difícil o dólar continuar em torno da cotação atual.
A principal questão são as incertezas sobre as contas públicas. Elas não têm
impedido o fortalecimento do real, mas o assunto tende a ganhar mais relevância
no segundo semestre. A percepção é que, a partir de 2027, o Brasil terá de
enfrentar o aumento insustentável dos gastos obrigatórios, para indicar num
horizonte razoável uma trajetória de estabilização e queda da dívida pública em
relação ao PIB. Sem isso, o dólar não se manterá na casa de R$ 5,20 ou menos e
os juros não cairão para níveis civilizados, algo fundamental para destravar
investimentos, aliviar o endividamento de empresas e pessoas físicas e melhorar
a própria dinâmica fiscal.

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