segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A trajetória do câmbio e o efeito sobre a inflação, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

No curto prazo, dólar pode chegar perto de R$ 5, mas proximidade das eleições e volatilidade externa podem levar a moeda a subir, especialmente no segundo semestre

O fortalecimento do real em relação ao dólar continua neste ano, num cenário em que a moeda americana perde força no mercado global e o Brasil é um dos emergentes favorecidos pelo movimento de diversificação de parte das carteiras dos investidores internacionais. O juro alto por aqui também tem contribuído para a valorização do câmbio. Na sexta-feira, o dólar fechou em R$ 5,1758, a cotação mais baixa desde maio de 2024. No ano, a queda é de 5,7%; em 12 meses, de 9,26%.

Um real mais forte ajuda a controlar a inflação, especialmente de bens industriais e alimentos, o que pode abrir espaço para cortes maiores da Selic. A taxa está em 15% ao ano, o que equivale a cerca de 10% em termos reais, descontando a inflação esperada para os próximos 12 meses, um nível elevadíssimo. Num ano de eleições e de volatilidade no cenário global, porém, os analistas não apostam, pelo menos por ora, numa moeda brasileira mais apreciada no fim do ano, ainda que no curto prazo o dólar possa cair para a casa de R$ 5.

No acumulado do ano até o dia 13 deste mês, as entradas de dólares superam as saídas em US$ 6,6 bilhões, segundo números do Banco Central (BC) para o fluxo cambial contratado. O canal financeiro está positivo em US$ 6,041 bilhões e o comercial, em US$ 514 milhões. Os recursos estrangeiros têm alimentado a alta da bolsa brasileira - o Ibovespa sobe 18,25% no ano. Os juros nas alturas também atraem parte do capital externo, que vem para aproveitar a diferença entre as taxas externas e internas.

Mas o cenário global é o principal fator a explicar a valorização da moeda brasileira. As incertezas provocadas pelas políticas do presidente dos EUA, Donald Trump, têm levado os investidores a realocar parte de seu dinheiro em outros mercados, como o Brasil. O índice DXY, que compara o dólar com uma cesta formada por euro, iene, libra, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço, está em queda de pouco mais de 8% em 12 meses. O enfraquecimento da moeda americana e esse movimento de diversificação de carteira dos investidores internacionais têm o Brasil como um dos beneficiados, como apontam os economistas do Bradesco, em relatório.

O consenso do mercado para o dólar por aqui, contudo, não têm se alterado. No Boletim Focus, do BC, as estimativas apontam há 18 semanas para uma cotação de R$ 5,50 no fim deste ano. Um ponto a ver é se esse consenso recuará nos dados do Focus a serem divulgados hoje, uma vez que o dólar continua em queda, tendo fechado abaixo de R$ 5,20 na sexta-feira.

A consultoria Logos Economia trabalha com uma moeda americana um pouco mais fraca para o fim de 2026, projetando R$ 5,35. Com esse câmbio, a previsão para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) neste ano é de 4%, segundo o economista Fábio Romão, sócio da Logos. Se o dólar for mais baixo, a inflação deve ser menor. Nas contas de Romão, se a moeda americana fechar 2026 em R$ 5,20, o IPCA ficaria em 3,8%; se terminar em R$ 5, cairia para 3,7%. Em 2025, o indicador foi de 4,26%, abaixo do teto da banda de tolerância da meta, de 4,5%, mas acima do centro do alvo, de 3%.

Um real mais forte poderia abrir espaço para cortes maiores da Selic, avalia Romão, que vê a taxa em 12,25% ao ano no fim de 2026. A expectativa do mercado é que o BC comece a cortar os juros na reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom). Um câmbio mais apreciado se juntaria a um crescimento global menor, que implica preços de commodities mais baixos, formando um cenário mais favorável a reduções mais fortes da Selic.

Romão, porém, tem sido relativamente cauteloso em relação a revisões para baixo do IPCA deste ano. Segundo ele, o repasse dos cortes de preços dos combustíveis na refinaria para a bomba tem sido pequeno ou inexistente, e o fenômeno climático El Niño pode pressionar a formação de preços de alimentos no segundo semestre. Para completar, haverá eleições neste ano. “Isso poderá desvalorizar o câmbio sobretudo entre julho e outubro”, diz Romão. Caso o dólar fique em R$ 5,50 no fim do ano, o IPCA ficaria em 4,1%, nas projeções da Logos. Essas estimativas, no entanto, podem mudar, a depender do que ocorrer com outros itens importantes para a inflação, como serviços e preços administrados (caso de tarifas públicas, por exemplo).

No curto prazo, parece haver espaço para uma queda adicional do dólar por aqui. Se o ambiente externo permanecer favorável para mercados emergentes nos próximos meses, a moeda americana pode se aproximar de R$ 5. Um ponto é que o cenário global continua volátil, principalmente por causa da imprevisibilidade de Trump. E se o Federal Reserve (Fed, o BC americano) for mais cauteloso na condução da política monetária, o ambiente global ficará menos benigno para os emergentes.

Além disso, a proximidade das eleições presidenciais pode causar alguma instabilidade nos preços dos ativos brasileiros, tornando mais difícil o dólar continuar em torno da cotação atual. A principal questão são as incertezas sobre as contas públicas. Elas não têm impedido o fortalecimento do real, mas o assunto tende a ganhar mais relevância no segundo semestre. A percepção é que, a partir de 2027, o Brasil terá de enfrentar o aumento insustentável dos gastos obrigatórios, para indicar num horizonte razoável uma trajetória de estabilização e queda da dívida pública em relação ao PIB. Sem isso, o dólar não se manterá na casa de R$ 5,20 ou menos e os juros não cairão para níveis civilizados, algo fundamental para destravar investimentos, aliviar o endividamento de empresas e pessoas físicas e melhorar a própria dinâmica fiscal.

 

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