Valor Econômico
Plenário do Supremo decide nesta quarta-feira sobre a liminar do ministro Flávio Dino que suspendeu os penduricalhos nos Três Poderes
Bacharéis em direito, com pelo menos três anos de experiência, eles foram aprovados num concurso difícil que envolveu provas objetiva, discursiva, de sentença cível e criminal, exame oral e avaliação de títulos. Além disso, cada aprovado demonstrou conhecimento suficiente para vencer uma concorrência de 18,65 candidatos por vaga. O salário era atraente: o edital anunciava um subsídio bruto de R$ 32.250,05 por mês.
Porém, nos cinco meses que se seguiram à
posse, os 117 novos magistrados tiveram uma remuneração média de R$ 42.592,23
líquidos por mês, já descontados imposto de renda, contribuição previdenciária
e demais deduções legais.
Trata-se de um ganho muito superior ao dos
dez ministros do Supremo Tribunal Federal, que apesar de terem subsídio bruto
de R$ 46.366,19, receberam líquido em suas contas, em média, R$ 28.612,78 por
mês.
Um magistrado nos primeiros meses de carreira
ganhar quase 50% a mais do que integrantes da Suprema Corte certamente é algo
que só acontece no Brasil.
A mágica que torna isso possível advém dos
chamados “penduricalhos” - indenizações que exploram uma brecha no texto da
Constituição e furam o teto remuneratório da República.
No caso dos recém-aprovados no concurso do
TJSP, trata-se de auxílio-alimentação que varia de R$ 1.120 a R$ 2.400 por mês,
auxílio-saúde de R$ 706,08 a R$ 3.408,31 mensais e ajudas de custo que chegaram
a R$ 68.166,28 para um juiz em determinado mês.
O maior item, porém, é a famosa licença
compensatória - pagamento de um dia extra de vencimento a cada três
trabalhados, por acúmulo de funções ou excesso de processos. Ela rendeu um
adicional mensal médio de R$ 8.487,10 para cada novo juiz nos seus primeiros
cinco meses de trabalho.
O que acontece com os novos juízes do TJSP
apenas escancara a realidade atual em toda a magistratura brasileira. Graças
aos penduricalhos, em 2025 o ganho médio líquido de um magistrado brasileiro da
ativa foi de R$ 81.495,07 por mês.
Para os mais antigos da carreira, os
penduricalhos são complementados por pagamentos retroativos de benefícios já
extintos, como adicionais por tempo de serviço, parcelas de equivalência,
reajustes dos tempos da época da URV, entre outras benesses pagas com pouca transparência
ou fiscalização.
O resultado é surreal: considerando os 18.208
magistrados que receberam em pelo menos seis meses do ano de 2025, apenas onze
(isso mesmo, o equivalente a um time de futebol) ficaram abaixo do teto.
Significa que 99,94% do total de juízes da ativa receberam mais do que os
ministros do Supremo.
Essas distorções não são exclusividade do
Poder Judiciário.
Estudo da Transparência Brasil mostrou que em
2024 98% dos promotores e procuradores do Ministério Público também ganharam
acima do teto.
E dados do Portal de Transparência mostram
que advogados públicos e procuradores da Fazenda Nacional, do Banco Central e
de autarquias federais tiveram pagamentos extras médios de R$ 374.612,35 ao
longo de 2025 a título de honorários - mais do que dobrando ganhos já altos, de
até R$ 32.439,52 por mês.
O advogado geral da União, Jorge Messias,
indicado para o cargo de ministro do STF, recebeu R$ 540.832,05 de honorários.
Junto com ele, 6.285 colegas de carreira levaram uma bolada superior a meio
milhão de reais em 2025, para além de seus rendimentos básicos.
Diante da possibilidade de o plenário do
Supremo ratificar, na próxima quarta, a liminar do ministro Flávio Dino de
suspender os penduricalhos, integrantes das carreiras jurídicas ameaçam entrar
em greve.
Seria uma boa oportunidade para a população brasileira refletir sobre o verdadeiro valor desses servidores públicos.

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