Veja
É
preciso cuidar sobretudo da educação de base
Uma recente avaliação do ensino de medicina alertou para os riscos à saúde dos brasileiros caso nossos médicos continuem a se formar nessas faculdades. Faltou denunciar os riscos à saúde do Brasil se continuarmos a educar nossas crianças e jovens nas atuais escolas de base. Os brasileiros precisam cuidar da qualidade das faculdades que formam doutores, sim, mas também da educação que vem desde o início, da infância. Além de outros fatores — protecionismo, burocratismo, insegurança jurídica, custo da máquina estatal e infraestrutura degradada —, a principal causa da estagnação de nossa renda média está na falta dos conhecimentos necessários para nos integrarmos ao mundo moderno. Sem a plena alfabetização de toda a população para a contemporaneidade, o país continuará sujeito a sete enfermidades: baixa produtividade, concentração de renda, pobreza, violência, instabilidade, corrupção e endividamento.
O primeiro analfabetismo a ser superado é o
da proficiência na língua nacional. Dez milhões de adultos não sabem ler nem
escrever, incapazes de reconhecer a própria bandeira nacional. Cinquenta ou
sessenta milhões conseguem ler “Ordem e Progresso”, mas não sabem interpretar
corretamente um texto longo; são incapazes de escrever uma redação com lógica,
entender o manual de um equipamento ou a receita de um bolo.
“Dez milhões de adultos não sabem ler nem
escrever, incapazes de reconhecer a própria bandeira”
A alfabetização para o mundo contemporâneo
deve oferecer a cada brasileiro capacidade para entender, deslumbrar-se e mudar
o país e o mundo: conhecimento dos fundamentos da matemática, das bases das
ciências físicas e sociais, além de história, geografia e gosto pelas artes.
Deve também permitir compreender os desafios que se apresentam ao país e ao
planeta, inclusive os limites ao crescimento econômico e os riscos decorrentes
da crise ecológica. Deve oferecer consciência política e compromisso para
participar dos destinos da nação.
Uma forma de analfabetismo diante do mundo moderno é não falar e escrever ao menos um idioma estrangeiro. Sem isso, torna-se difícil participar do mundo e praticamente inviável cursar um ensino superior de qualidade. Outro componente do analfabetismo contemporâneo é a ausência de habilidades técnicas para o exercício de pelo menos um ofício que assegure emprego e renda.
O cidadão alfabetizado para a
contemporaneidade não precisa necessariamente ingressar na universidade, mas,
se tiver vocação e desejar cursar o ensino superior, deve estar preparado para
disputar vaga nos cursos mais concorridos. Nos tempos atuais, ser alfabetizado
exige entender que cada país é um pedaço do mundo e que o PIB deixou de ser o
único indicador de progresso, pois a riqueza precisa ser sustentável
ecologicamente e socialmente justa. Para que o conhecimento seja efetivo, é
necessário formar cada brasileiro para a solidariedade entre os seres humanos e
destes com a natureza. Não há outra saída.
A educação de base com qualidade deve
oferecer a cada brasileiro um mapa para a busca de sua felicidade pessoal e os
instrumentos para contribuir na construção de um país mais rico economicamente
e melhor socialmente. Para dar saúde ao Brasil — e, portanto, também médicos de
excelência —, é preciso implantar um sistema nacional público de educação de
base com alta qualidade para todos, independentemente da renda e do endereço.
Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.