Correio Braziliense
O primeiro analfabetismo a ser superado é o
da proficiência escrita e falada da língua nacional. E o alfabetizado para a
contemporaneidade precisa ter visão do mundo global atual, compreender os
desafios do país e do mundo
Por muitos anos, prevaleceu a ideia de que o analfabetismo consistia em não saber soletrar uma palavra. Faz algum tempo, usa-se o conceito de analfabetismo funcional para quem sabe decifrar as letras, mas não compreende um texto mais complexo. A realidade atual revela outro tipo de analfabeto: aquele que sabe ler, inclusive textos, mas não está preparado para entender e participar do mundo contemporâneo. O analfabetismo é uma forma de escravidão, não apenas ao impedir a leitura de um texto, mas também quando dificulta a compreensão e participação profissional, política e cultural no mundo. Além de outros fatores, causa determinante da estagnação e da concentração da renda nacional está no analfabetismo dos conhecimentos necessários para elevar a produtividade e a eficiência de nossa população em todos os setores da economia.
O primeiro analfabetismo a ser superado é o
da proficiência escrita e falada da língua nacional. O Brasil não ingressa na
contemporaneidade com 10 milhões de adultos sem saber ler nem escrever,
incapazes de reconhecer a própria bandeira nacional, e com 50 ou 60 milhões que
conseguem ler "Ordem e Progresso", mas não sabem escrever ou analisar
e interpretar corretamente um texto longo, peça literária ou manual de produção
ou uso. Ao falar, não dispõe de oratória suficiente para passar uma ideia ou
submeter-se a uma entrevista de emprego.
A alfabetização para o mundo contemporâneo
deve oferecer a cada brasileiro os fundamentos da matemática, as bases das
ciências, além de história, geografia e gosto pelas artes e literatura;
oferecer consciência política e compromisso para participar dos destinos da
nação. O alfabetizado para a contemporaneidade precisa ter visão do mundo
global atual, compreender os desafios do país e do mundo. Perceber os limites
do crescimento econômico e que o PIB deixou de ser o único indicador de
progresso, pois a riqueza precisa ser sustentável ecologicamente e socialmente
justa.
No mundo atual, para o conhecimento ser
efetivo, é necessário formar a solidariedade entre os seres humanos e destes
com a natureza. Quem não percebe a interdependência entre cada ser humano é um
analfabeto social. O analfabetismo do individualismo impede a eficiência da
política, barra a sustentabilidade e termina promovendo o suicídio da
democracia, da justiça e do equilíbrio ecológico. Uma forma de analfabetismo diante
do mundo moderno é não falar e escrever ao menos um idioma estrangeiro. Sem
isso, torna-se difícil conhecer, acompanhar e participar do mundo, é
praticamente inviável cursar um ensino superior de qualidade.
Outro componente do analfabetismo contemporâneo
é a ausência de habilidades técnicas para o exercício de um ofício
profissional. Todo jovem deve concluir sua educação de base com uma profissão
que lhe assegure emprego e renda, de forma que o ensino superior seja para
realizar um desejo vocacional, e não para preencher o vazio deixado por ciclos
básicos sem qualidade suficiente. A alfabetização plena para a
contemporaneidade requer preparar cada aluno para ser capaz de usar com
destreza os modernos equipamentos digitais e a inteligência artificial.
O cidadão alfabetizado para a
contemporaneidade não precisa necessariamente ingressar na universidade, mas,
se tiver vocação e desejar cursar ensino superior, deve estar preparado para
disputar vaga nos cursos mais concorridos, independentemente da renda e do
endereço.
A educação de base com qualidade deve
oferecer a cada brasileiro o ensinamento que lhe permita integrar-se ao mundo
contemporâneo, buscar sua felicidade e contribuir para a construção de um país
mais rico economicamente, mais justo e eficiente socialmente. O Brasil quase
universalizou a "matrícula" nas primeiras séries do ensino
fundamental, mas matrícula não é "frequência", que não é
"assistência", nem "permanência" até o final do ensino
médio, que por sua vez não é "aprendizado", e este nem sempre
alfabetiza plenamente para a contemporaneidade. Esse objetivo requer a
implantação de um Sistema Nacional Único Público até o final da educação
de base com alta qualidade para todos, independentemente da renda e do
endereço.
*Cristovam Buarque — professor emérito da
Universidade de Brasília (UnB)

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