domingo, 22 de fevereiro de 2026

As dores da política, por Merval Pereira

O Globo

Aparentemente, sem consultar seus pares, Alexandre de Moraes quer descobrir se funcionários da Receita Federal obtiveram os dados de sua mulher, e do ministro Toffoli. Alguns de seus colegas, porém, temem que Moraes tenha informações excessivas sobre eles e suas famílias.

Fui assistir à ópera “Um baile de máscaras” na Bastille, e não consegui deixar de pensar no Brasil. A obra de Verdi destaca temas como “destino inevitável”, “traição”, “perdão”, “sacrifício”, terminando com uma mensagem humanista: o perdão e a honra podem prevalecer mesmo diante da morte. Fiquei pensando, porém, na situação atual do Supremo Tribunal Federal (STF), que um ministro me definiu como de “insegurança”. A reunião, que se queria secreta, que definiu a saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master, foi gravada, provavelmente pelo próprio, o que deixou seus defensores abismados e temerosos. Que outras conversas teriam sido gravadas?

Dias depois, o ministro Alexandre de Moraes, valendo-se dos poderes infinitos que lhe concedeu a omissão de seus companheiros de toga, mandou quebrar o sigilo bancário de cerca de cem pessoas ligadas por parentesco até o terceiro grau aos mesmos ministros. Aparentemente, sem consultar seus pares, Moraes quer descobrir se funcionários da Receita Federal obtiveram os dados de sua mulher, a advogada que fez um contrato milionário com o Banco Master, e do ministro Toffoli. Alguns de seus colegas, porém, temem que Moraes tenha informações excessivas sobre eles e suas famílias. Ambiente inseguro, traição, Um Baile de Máscaras, de Giuseppe Verdi, como vemos, continua surpreendentemente atual quando observada à luz da política brasileira contemporânea.

Embora ambientada em outro tempo e contexto, a obra levanta questões de poder, desconfiança e conspiração que dialogam com tensões presentes no Brasil de hoje. No centro da ópera está um governante carismático que, mesmo cercado de lealdades aparentes, vive sob a sombra da traição. Esse elemento ecoa a realidade política brasileira, quando se armam as negociações para as eleições deste ano, especialmente a presidencial, marcada por alianças instáveis, disputas internas e frequentes crises de confiança entre líderes e seus próprios aliados.

As traições e a insegurança fazem parte do roteiro dos Bolsonaro, onde o pai não confia nos aliados, mas somente na família que, no entanto, também se desentende nos bastidores. A atuação do ex-deputado Eduardo a favor das taxações de Trump no Brasil gerou discussões ácidas vazadas. E a desavença entre a madrasta Michelle e os enteados, causada por ambições políticas, é uma tragédia operística. O caso do Master é exemplar desse ambiente ambíguo também no petismo. O ministro Toffoli, uma cria de Lula e do PT, já havia traído Lula quando este esteve na prisão, proibindo-o de ir ao enterro do irmão.

Presidente do STF, convocou um general do Exército para assessorá-lo e passou a chamar o golpe de 64 de “movimento”. No caso Master, colocou o governo em situação delicada quando revelou-se a intimidade que tinha com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Tal como o duque Ricardo da peça, governam num ambiente em que amizades políticas podem rapidamente transformar-se em rivalidades. No baile final da ópera, quando caem as máscaras, as identidades ocultas simbolizam a dificuldade de distinguir intenções verdadeiras.

A metáfora do baile sugere um cenário em que a aparência pública nem sempre corresponde às articulações reais de poder. A obra de Verdi também enfatiza o peso do destino e da inevitabilidade. A profecia que anuncia a morte de Ricardo cria uma atmosfera de fatalismo que lembra certos momentos da política brasileira, quando crises parecem caminhar para desfechos previsíveis apesar das tentativas de evitá-los. Como o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que levou à desclassificação da escola e a acusações de abuso do poder econômico e político a serem analisadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Um Baile de Máscaras permanece atual porque revela que, por trás das mudanças históricas, a política continua sendo um palco de ambições, lealdades frágeis, encenação pública e decisões humanas sob pressão — um verdadeiro baile em que nem todos mostram os rostos.

 

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