domingo, 22 de fevereiro de 2026

Trump, Irã e o dilema do prisioneiro, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Eventual queda dos regimes do Irã e de Cuba poderia melhorar o humor dos americanos

Donald Trump disse na quinta-feira que vai esperar entre 10 e 15 dias por progresso nas negociações com o Irã, antes de decidir sobre ação militar. Em junho, o americano se deu duas semanas para decidir, numa quinta-feira, dia 19, e ordenou o bombardeio das instalações nucleares iranianas no domingo, 22.

Trump segue padrões de conduta. Na sexta-feira, ele admitiu a possibilidade de ataque limitado ao Irã, precisamente o que o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, tem tentado dissuadi-lo de fazer.

O USS Gerald Ford, maior porta-aviões do mundo, está se deslocando do Caribe, onde participou das operações contra a Venezuela, para o Golfo Pérsico. Lá já se encontra o USS Abraham Lincoln, deslocado do Mar do Sul da China.

Acompanhados de seus grupos de batalha, eles constituem a maior força militar americana mobilizada no Oriente Médio desde a invasão do Iraque em 2003. Os EUA estão militarmente prontos para bombardeios de grande escala e operações especiais, com a retirada de pessoal não essencial da região e a definição de alvos, incluindo autoridades do regime.

Em meados de janeiro, Trump só não ordenou um ataque por causa dos pedidos das monarquias árabes do Golfo, alvos de eventuais retaliações iranianas, e da advertência de Netanyahu de que ataques pontuais e inconclusivos só evidenciariam a resiliência do regime.

A questão é: como mudar o regime em Teerã sem tropas no terreno, algo que a opinião pública americana não toleraria? Entra um padrão estabelecido na Venezuela, onde a captura de Nicolás Maduro criou espaço para um governo obediente em Caracas. No caso iraniano, decapitações, ainda que maciças, não bastariam.

Os problemas do governo Trump se acumulam neste ano de eleições no Congresso: a persistência do alto custo de vida, a indignação pela falta de indiciamentos de suspeitos nos crimes de Jeffrey Epstein e pela morte de dois cidadãos americanos nas operações anti-imigração. A eventual queda dos regimes do Irã e de Cuba poderia melhorar o humor dos americanos.

O líder espiritual Ali Khamenei e outros integrantes da cúpula acreditam que a mobilização militar americana pode ser um blefe, dada a oposição da opinião pública dos EUA a uma aventura militar; e que um ataque limitado só reforçaria a percepção de solidez da teocracia.

Há uma perigosa assimetria de análises de cenário e de expectativas entre Trump e a cúpula iraniana, um clássico ‘dilema do prisioneiro da teoria dos jogos, no qual o desconhecimento da estratégia do outro conduz a decisões irracionais, destrutivas para ambos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.