Folha de S. Paulo
A verdade é simples: a esquerda, como a
direita e o centro, precisa de apoio da bancada Master para governar
Dos 18 entes federativos que investiram no
Master, 17 eram governados pela direita
O afastamento de Dias Toffoli do
caso Master foi tardio, mas bem-vindo. E, se o afastamento ampliar o foco do
público para além do STF, pode
ajudá-lo a entender o que foi a mutreta política erguida ao redor da mutreta
financeira de Daniel Vorcaro.
Ela aconteceu, sobretudo, no Congresso, nos estados e municípios. E, a menos que o conteúdo do celular de Vorcaro nos mostre outra coisa, foi feita majoritariamente pela direita.
Os dois partidos que declararam apoio a Dias
Toffoli após seu afastamento são de direita: Partido
Progressista (PP)
e União Brasil.
O ex-presidente da Câmara Arthur Lira, é do PP. Lira indicou para o TCU o
ministro (e ex-deputado do Republicanos) que atropelou o Bacen no caso Master.
O presidente do Senado, David Alcolumbre, é do União Brasil do Amapá, estado
que pôs grana no banco de Vorcaro.
O deputado Ciro Nogueira (PP-PI),
que assina a nota de apoio a Toffoli, é o autor de uma emenda à PEC 65, de
2003, que teria aumentado o valor de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito
de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
O deputado de direita Filipe Barros (PL-PR),
que em reunião no Congresso em 30 de novembro de 2022 pediu um golpe por
aplicação do "artigo 142",
é autor do projeto de lei 4395, de 2024, que também aumentaria a cobertura do
FGC no mesmo valor. As duas propostas foram, obviamente, tentativas de salvar o
Banco Master aumentando a conta do prejuízo que seria paga pelo FGC.
Dos 18 entes federativos (estados ou
municípios) que colocaram dinheiro de aposentados no Banco Master, 17 eram
governados pela direita. Se quisermos equilibrar o placar colocando na conta a
ala do PT na
Bahia que tem um rolo com um sócio de Daniel Vorcaro, o placar fica em 17 a 2.
O governador do Distrito Federal que tentou
salvar o Banco Master com dinheiro público do BRB é o direitista Ibaneis Rocha.
Foi a sua polícia, sob comando do ex-ministro da Justiça de Bolsonaro
(atualmente preso), que deixou os golpistas de 8 de Janeiro destruírem a praça
dos Três Poderes.
A imprensa também noticiou que esquerdistas
como Guido Mantega fizeram lobby
pelo Master, e que o escritório de advocacia do esquerdista Ricardo
Lewandowski manteve um contrato com o Master enquanto ele era ministro da
Justiça do esquerdista Lula.
Mas até agora não se tem notícia de atuação do esquerdista Lula, ou do
esquerdista Haddad, em favor do Master: Não há —até agora, pelo menos— uma
fraude da RioPrev de esquerda, não há uma emenda Master de esquerda, não há uma
operação BRB de esquerda.
Como bem disse Marina Amaral em artigo para a Agência Pública, "a bancada do Master é
de direita".
Aí você pode perguntar: se é assim, por que a
esquerda não está fazendo um fuzuê acusando a direita por seu papel central no
escândalo?
É triste, mas é simples: porque a esquerda,
como a direita e o centro, precisa de apoio da bancada Master para governar.
Como veremos na campanha desse ano, todos também precisam dela para se eleger.
Isso também ajuda a explicar por que Flávio
Bolsonaro, do outro lado do espectro ideológico, tem evitado falar do
escândalo. Não é só porque os envolvidos têm a mesma ideologia que ele, não é
só por gratidão a Toffoli por tê-lo livrado no caso Queiroz: é porque ninguém
governa sem a bancada Master.

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