Por Alice Bernardes / Correio Braziliense
Segundo aliados, há uma estratégia em curso
para garantir que as orientações e "desejos" do ex-presidente
circulem entre os principais nomes do campo bolsonarista
Sob custódia e com visitas controladas por
decisão judicial, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) continua no centro das
articulações políticas da direita. Nos bastidores, aliados admitem que o
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), não autorizará
todos os pedidos de visita, mas afirmam que há uma estratégia em curso para
garantir que as orientações e "desejos" do ex-chefe do Executivo
circulem entre os principais nomes do campo bolsonarista.
Segundo uma aliada do primeiro escalão, a movimentação tem como objetivo manter a coesão do grupo e assegurar que decisões políticas sejam alinhadas com Bolsonaro, independentemente do local onde ele esteja. "Nós sabemos que Moraes não autorizará todos a visitar Bolsonaro, mas estamos nos articulando para que todos estejam a par dos desejos do ex-presidente. Não tenho dúvidas de que, onde quer que ele esteja, nós vamos cumprir o que for dito."
A fonte ainda sustenta que o ex-presidente
segue mobilizado, apesar do quadro pessoal delicado, e que uma de suas maiores
preocupações são os condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro.
Para aliados, isso explica a centralidade das pautas da anistia e da revisão de
penas, por meio da chamada dosimetria. "A dosimetria é a prova de que
Bolsonaro não está pensando nele, porque ele não vai ser beneficiado agora",
disse a aliada, ao defender que o tema extrapola interesses individuais. Vale
destacar que o presidente Lula vetou a dosimetria no último dia 8 de janeiro,
mas a oposição se articula para derrubar o veto.
Nesse contexto, a visita do deputado federal
Nikolas Ferreira (PL-MG), autorizada por Moraes na sexta-feira, é tratada como
estratégica. Aliados destacam o capital político do parlamentar e a projeção
nacional adquirida após a chamada "Caminhada pela Liberdade",
mobilização liderada por ele que durou cerca de seis dias e reuniu discursos
contra o STF e em defesa da anistia aos condenados pelos ataques às sedes dos
Três Poderes e principalmente a Bolsonaro. A expectativa é que o encontro
reforce a sintonia entre Bolsonaro e uma das principais vozes do bolsonarismo
no Congresso.
Enquanto alguns conseguem avançar, outros
esbarram nas restrições impostas pelo Judiciário. Nesta semana, o magistrado
negou pedidos de visita feitos pelos advogados de Bolsonaro para encontros com
o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e com o senador Magno Malta
(PL-ES). No caso de Valdemar, a justificativa foi objetiva: ambos respondem ao
mesmo processo por tentativa de golpe, o que impede qualquer comunicação direta
entre eles.
Palanque
Apesar das negativas, a fila de aliados que
buscam a chamada "bênção" de Bolsonaro só cresce. Também na
sexta-feira, parlamentares do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul
protocolaram pedidos formais ao STF solicitando autorização para visitas. A
avaliação entre aliados é de que estar próximo do ex-presidente, ainda que
indiretamente, pode pesar nas disputas internas do PL e na definição de
estratégias eleitorais.
Prova disso é que decisões consideradas
centrais já teriam partido de Bolsonaro mesmo antes de sua transferência para a
Papudinha, no Distrito Federal. Ainda na Superintendência da Polícia Federal,
ele teria batido o martelo em favor do nome do filho, o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), como aposta do grupo para a disputa presidencial de 2026.
As conversas sobre o futuro eleitoral
continuaram nos encontros autorizados. Na quinta-feira passada, o governador de
São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), visitou Bolsonaro e reiterou que
disputará a reeleição no estado, ao mesmo tempo em que reforçou apoio a Flávio
para a corrida presidencial. O diálogo evidenciou que, mesmo atrás das grades,
Bolsonaro segue sendo uma referência incontornável para aliados e potenciais
candidatos.
Ainda assim, o cerco judicial impõe limites
claros. Tentativas de alinhar estratégias partidárias mais amplas, como a
formação de alianças para o Senado, têm encontrado resistência no STF. Para
aliados, o desafio agora é manter a influência política do ex-presidente ativa,
navegando entre autorizações pontuais, negativas do Judiciário e uma base que
continua a enxergá-lo como principal fiador do projeto político do
bolsonarismo.

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