Por Fernando Strickland e Francisco Artur de Lima / Correio Braziliense
O documento, que deve ser entregue nesta
segunda-feira (2/2), deve listar projetos considerados prioritários pelo
Planalto para aprovação ainda no primeiro semestre
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva enviará ao Congresso Nacional, amanhã, a mensagem de abertura dos
trabalhos legislativos com um recado central: 2026 será o "ano da
entrega" de políticas públicas construídas após um período de
"reconstrução". O documento deve listar projetos considerados
prioritários pelo Palácio do Planalto para aprovação ainda no primeiro
semestre, tanto na Câmara quanto no Senado.
A estratégia surge após um 2025 marcado por turbulências na relação entre Executivo e Legislativo. Um dos episódios recentes foi a troca de críticas entre a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sobre o uso de emendas parlamentares. Tebet afirmou que o Congresso teria feito um "sequestro" de R$ 61 bilhões do Orçamento, enquanto Motta respondeu que a alocação de recursos é uma prerrogativa constitucional do Parlamento.
Apesar do atrito, o Planalto tem sinalizado
disposição para manter o diálogo. No último sábado, Lula reuniu Motta e o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em um churrasco na Granja do
Torto, em gesto de aproximação entre os Poderes.
Escala 6x1
Entre as principais apostas do governo está a
aprovação do fim da escala 6x1. Atualmente, dois textos tramitam no Congresso.
A proposta de emenda à Constituição apresentada pela deputada Erika Hilton
(PSol-SP) prevê jornada semanal de 36 horas em escala 4x3 — quatro dias de
trabalho e três de descanso. Já o projeto do senador Paulo Paim (PT-RS) reduz a
carga para 40 horas semanais e consolida a escala 5x2.
Embora a proposta de Hilton tenha maior apelo
popular, o texto de Paim já foi aprovado pela Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ) do Senado e pode seguir para votação em plenário. O governo
avalia enviar uma nova proposta que unifique as duas iniciativas para acelerar
a tramitação.
A ministra da Secretaria de Relações
Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que, após medidas como a correção do
salário mínimo com ganho real, a geração de empregos e a isenção do Imposto de
Renda para quem ganha até R$ 5 mil, "está na hora de cuidar da qualidade
de vida do povo brasileiro". Segundo ela, a redução da jornada tem a
"simpatia" de Hugo Motta e também é defendida pelos ministros
Guilherme Boulos e Luiz Marinho.
Na Secretaria-Geral da Presidência, a
avaliação é de que o caminho mais viável seria aprovar inicialmente a escala
5x2 para substituir o modelo atual.
Trabalho por aplicativos
Outro ponto central da agenda é a
regulamentação do trabalho de motoristas e entregadores por aplicativo. O
projeto de lei complementar cria a categoria de "trabalhador autônomo por
plataforma", garantindo direitos sem vínculo com a CLT para motoristas de
moto.
O texto prevê remuneração mínima por hora
trabalhada, contribuição obrigatória ao INSS — de 7,5% para o trabalhador e 20%
para a empresa —, auxílio-maternidade, transparência nos algoritmos e liberdade
para atuar em múltiplas plataformas.
Um grupo de trabalho formado por ministérios
como a Secretaria-Geral da Presidência, Trabalho e Emprego e Desenvolvimento,
Indústria, Comércio e Serviços terá até a próxima semana para apresentar
propostas voltadas à melhoria da qualidade de vida desses trabalhadores.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, cobrou
produtividade do Congresso e afirmou esperar que o projeto seja pautado.
"Temos pouco tempo nesse ano. O que o presidente Hugo Motta se comprometeu
foi de pautar o PL dos aplicativos. Então é um compromisso dele",
declarou.
Segurança pública
Sob pressão da oposição, o governo também
tenta avançar em propostas na área de segurança pública. Uma delas é a PEC da
Segurança Pública, que busca criar o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP),
ampliando o poder de coordenação da União sobre as polícias. O objetivo,
segundo o ex-ministro Ricardo Lewandowski, é dar mais precisão às políticas e
fortalecer o combate ao crime organizado.
A proposta enfrenta resistência de
governadores e parlamentares oposicionistas, que veem risco de
"centralização" e interferência federal na gestão das polícias
estaduais. Após reunião com o ministro da Justiça, Wellington César Lima e
Silva, Hugo Motta afirmou que o texto já vem sendo debatido entre os líderes e
que a intenção é tratar da votação após o Carnaval. O relator, deputado
Mendonça Filho (União Brasil-PE), deve apresentar um substitutivo nas duas
primeiras semanas de fevereiro.
Outro projeto relacionado ao tema é o chamado
PL Antifacção, que cria o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado. A matéria
voltou para análise da Câmara depois de ser aprovada pelo Senado com
alterações.
Sob pressão
Para o CEO da Casa Política, Márcio Coimbra,
2026 tende a ser um "ano curto" no Congresso. Com a reabertura dos
trabalhos em 2 de fevereiro e as eleições gerais no horizonte, o Parlamento
costuma operar em ritmo intenso apenas até junho. "O primeiro semestre
será uma 'panela de pressão' com temas que misturam urgência fiscal e apelo
popular", avalia.
Segundo Coimbra, o governo tenta retomar protagonismo na segurança pública para neutralizar a oposição, ao mesmo tempo em que precisa equilibrar as contas e entregar medidas de impacto eleitoral, como a isenção do IR até R$ 5 mil. Ele também cita a regulação da inteligência artificial, o aumento da tributação sobre apostas online e fintechs e a revisão de gastos diante da pressão sobre o arcabouço fiscal.

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