Folha de S. Paulo
Há 74 menções ao político nesses documentos,
assim como referências a outras personalidades brasileiras
O escândalo Epstein exibe o quadro de um retorno ainda mal compreendido do fascismo
Jamie Raskin, o principal democrata da Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados dos EUA, revelou que os arquivos de Jeffrey Epstein foram editados para ocultar nomes de "abusadores, facilitadores, cúmplices e coconspiradores". Há 74 menções a Bolsonaro nesses documentos, assim como referências ambíguas a outras personalidades brasileiras. Sobre Bolsonaro não se falou diretamente de sexo nem de tráfico de menores.
Mas corria o ano de 2018 e, segundo as
transcrições das conversas
com Steve Bannon, ambos pretendiam influenciar na eleição do Bozo. Deve ter
sido o que ocorreu entre Bannon e o filho 03, articulador da campanha nas redes
sociais. Epstein, envolvido com políticos, não com política, é um ponto fora da
curva.
Mas, como um todo, o escândalo Epstein exibe
o quadro de um retorno ainda mal compreendido do fascismo: a gênese do
extremismo pode estar no plano micropolítico, molecular. É onde se visibiliza
aquela transformação conceituada por Pasolini como "mutação
antropológica", isto é, um processo de modificação subjetiva que primeiro
investiu a nação italiana e hoje se espraia na sociedade contemporânea.
Trata-se da concepção de fascismo como uma máquina destrutiva que, além do
ataque às instituições (família, cultura, língua, igreja), comporta uma
vertente erótica. Ativados pela biopolítica, os corpos se eletrizam de poder e
juntam ao prazer extremo a pulsão de morte.
No plano micropolítico transparecem aspectos
relevantes do macro, como no regime trumpista, cujo movimento histórico
regressivo deixa ver uma "neorealeza" concentracionista e
autoritária, típica das dinastias europeias dos Tudors ou dos Habsburgos.
Sabe-se do fascínio de Trump, assim como das velhas elites norte-americanas,
pela monarquia britânica.
Semelhante aos bastidores de cortes reais do
passado, onde a libertinagem compunha costumes aristocráticos e experiência
política identificava-se à erótica, a máquina do novo fascismo bordeja os
limites sádicos de expoentes da direita e bilionários, mas também de
"belas almas" como o guru Deepak Chopra e Noam Chomsky. Esse era o
ecossistema da depravação, em que o mestre predador sexual Epstein reencenava,
a partir do imaginário perverso, os atos de degradação das vítimas, crianças e
adultos. Ali Donald Trump aprendeu
a não distinguir lei de crime.
Questão melindrosa é averiguar como um
zé-prequeté, o apagado Bolsonaro, aparece em arquivos privativos a chefes de
Estado, príncipes europeus e magnatas. Plausível é considerar o neofascismo
ascendente não como "onda" nebulosa, e sim como estrutura complexa,
embora sem bases materiais delineadas. A ela se ajusta o conceito reflexivo de
"máquina" como fluxo de energia produtor de realidade.
Em 2018, a máquina transnacional do fascismo
detectou na figura do Bozo um grau zero de democracia, como na eleição de um
reality show, onde um homem sem qualidade pode ser o vencedor. Isso atraiu a
atenção especializada de Bannon. Já Epstein, ponta do iceberg da alta
criminalidade sexual cosmopolita, seduzido pelas praias nordestinas (as
cearenses Morro Branco e Canoa-Quebrada aparecem nos arquivos), farejou um
facilitador para uma base brasileira de recrutamento de vítimas. E coberto de
razão: podridão moral é o insumo mor dessa máquina.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.