domingo, 15 de fevereiro de 2026

Bolsonaro nos arquivos de Epstein, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Há 74 menções ao político nesses documentos, assim como referências a outras personalidades brasileiras

O escândalo Epstein exibe o quadro de um retorno ainda mal compreendido do fascismo

Jamie Raskin, o principal democrata da Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados dos EUA, revelou que os arquivos de Jeffrey Epstein foram editados para ocultar nomes de "abusadores, facilitadores, cúmplices e coconspiradores". Há 74 menções a Bolsonaro nesses documentos, assim como referências ambíguas a outras personalidades brasileiras. Sobre Bolsonaro não se falou diretamente de sexo nem de tráfico de menores.

Mas corria o ano de 2018 e, segundo as transcrições das conversas com Steve Bannon, ambos pretendiam influenciar na eleição do Bozo. Deve ter sido o que ocorreu entre Bannon e o filho 03, articulador da campanha nas redes sociais. Epstein, envolvido com políticos, não com política, é um ponto fora da curva.

Mas, como um todo, o escândalo Epstein exibe o quadro de um retorno ainda mal compreendido do fascismo: a gênese do extremismo pode estar no plano micropolítico, molecular. É onde se visibiliza aquela transformação conceituada por Pasolini como "mutação antropológica", isto é, um processo de modificação subjetiva que primeiro investiu a nação italiana e hoje se espraia na sociedade contemporânea. Trata-se da concepção de fascismo como uma máquina destrutiva que, além do ataque às instituições (família, cultura, língua, igreja), comporta uma vertente erótica. Ativados pela biopolítica, os corpos se eletrizam de poder e juntam ao prazer extremo a pulsão de morte.

No plano micropolítico transparecem aspectos relevantes do macro, como no regime trumpista, cujo movimento histórico regressivo deixa ver uma "neorealeza" concentracionista e autoritária, típica das dinastias europeias dos Tudors ou dos Habsburgos. Sabe-se do fascínio de Trump, assim como das velhas elites norte-americanas, pela monarquia britânica.

Semelhante aos bastidores de cortes reais do passado, onde a libertinagem compunha costumes aristocráticos e experiência política identificava-se à erótica, a máquina do novo fascismo bordeja os limites sádicos de expoentes da direita e bilionários, mas também de "belas almas" como o guru Deepak Chopra e Noam Chomsky. Esse era o ecossistema da depravação, em que o mestre predador sexual Epstein reencenava, a partir do imaginário perverso, os atos de degradação das vítimas, crianças e adultos. Ali Donald Trump aprendeu a não distinguir lei de crime.

Questão melindrosa é averiguar como um zé-prequeté, o apagado Bolsonaro, aparece em arquivos privativos a chefes de Estado, príncipes europeus e magnatas. Plausível é considerar o neofascismo ascendente não como "onda" nebulosa, e sim como estrutura complexa, embora sem bases materiais delineadas. A ela se ajusta o conceito reflexivo de "máquina" como fluxo de energia produtor de realidade.

Em 2018, a máquina transnacional do fascismo detectou na figura do Bozo um grau zero de democracia, como na eleição de um reality show, onde um homem sem qualidade pode ser o vencedor. Isso atraiu a atenção especializada de Bannon. Já Epstein, ponta do iceberg da alta criminalidade sexual cosmopolita, seduzido pelas praias nordestinas (as cearenses Morro Branco e Canoa-Quebrada aparecem nos arquivos), farejou um facilitador para uma base brasileira de recrutamento de vítimas. E coberto de razão: podridão moral é o insumo mor dessa máquina.

 

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