Folha de S. Paulo
Governantes e candidatos passam a perseguir
bandeiras que se transformem em votos
Risco é a adoção de políticas erradas ou
menos eficazes do que poderiam ser se implementadas com calma
A homenagem que uma escola de samba fluminense fez a Lula viola
a legislação eleitoral? A escola, afinal, recebeu verbas
federais (todas receberam) e o próprio presidente e ministros acorreram ao
desfile, embora tenham exercido alguma discrição.
O TSE, até aqui, agiu corretamente. Não proibiu o desfile, o que configuraria intervenção absurda na liberdade de criação artística, mas disse em alto e bom som que o petista correria riscos —daí a cautela do entorno presidencial. Veremos se isso vira um processo de abuso de poder político e econômico. Após as condenações eleitorais de Bolsonaro, o TSE está moralmente obrigado a ser rigoroso nessa matéria.
Penso que Lula se pôs em situação de
vulnerabilidade a troco de nada. "Vanitas vanitatum et omnia
vanitas".
Mais consequente é o caso da redução da
jornada de trabalho. É um projeto meritório, mas que obviamente tem custos. Se
o trabalho, que é um preço importante da economia, fica mais caro, é razoável
esperar impacto inflacionário. A distribuição dos ônus não é uniforme. Há
setores que tirariam a mudança de letra, mas há outros, já na iminência de
substituição tecnológica, como portarias de prédios, em que o resultado pode
ser desemprego maciço.
O governo e o PT, que passaram os
últimos três anos dedicando atenção marginal à redução, agora que precisam de
uma bandeira eleitoral, querem correr com a proposta, atropelando os trâmites
legislativos e a possibilidade de elaborar um projeto bem estudado, que minore
os efeitos adversos.
Obviamente, não são só Lula e o PT. Em São Paulo,
o governador Tarcísio de
Freitas, candidato à reeleição, vem dando nó em pingo d’água para
racionar água sem dizer que há um racionamento. Também corre riscos. Se o pior
acontecer e sairmos da estação seca com os reservatórios vazios, ele será
cobrado por não ter recorrido ao racionamento pleno quando isso teria feito
alguma diferença.
O problema do populismo não é defender pautas
que tenham apelo popular, mas sim fazê-lo sem medir as consequências.
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