terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Brasil está em modo eleitoral, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Governantes e candidatos passam a perseguir bandeiras que se transformem em votos

Risco é a adoção de políticas erradas ou menos eficazes do que poderiam ser se implementadas com calma

homenagem que uma escola de samba fluminense fez a Lula viola a legislação eleitoral? A escola, afinal, recebeu verbas federais (todas receberam) e o próprio presidente e ministros acorreram ao desfile, embora tenham exercido alguma discrição.

TSE, até aqui, agiu corretamente. Não proibiu o desfile, o que configuraria intervenção absurda na liberdade de criação artística, mas disse em alto e bom som que o petista correria riscos —daí a cautela do entorno presidencial. Veremos se isso vira um processo de abuso de poder político e econômico. Após as condenações eleitorais de Bolsonaro, o TSE está moralmente obrigado a ser rigoroso nessa matéria.

Penso que Lula se pôs em situação de vulnerabilidade a troco de nada. "Vanitas vanitatum et omnia vanitas".

Mais consequente é o caso da redução da jornada de trabalho. É um projeto meritório, mas que obviamente tem custos. Se o trabalho, que é um preço importante da economia, fica mais caro, é razoável esperar impacto inflacionário. A distribuição dos ônus não é uniforme. Há setores que tirariam a mudança de letra, mas há outros, já na iminência de substituição tecnológica, como portarias de prédios, em que o resultado pode ser desemprego maciço.

O governo e o PT, que passaram os últimos três anos dedicando atenção marginal à redução, agora que precisam de uma bandeira eleitoral, querem correr com a proposta, atropelando os trâmites legislativos e a possibilidade de elaborar um projeto bem estudado, que minore os efeitos adversos.

Obviamente, não são só Lula e o PT. Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição, vem dando nó em pingo d’água para racionar água sem dizer que há um racionamento. Também corre riscos. Se o pior acontecer e sairmos da estação seca com os reservatórios vazios, ele será cobrado por não ter recorrido ao racionamento pleno quando isso teria feito alguma diferença.

O problema do populismo não é defender pautas que tenham apelo popular, mas sim fazê-lo sem medir as consequências.

 

 

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