O Globo
Não devemos ecoar a indignação das ruas, mas
resistir a ela quando os fatos exigem
Em março de 1994, duas mães procuraram a polícia de São Paulo após notarem no comportamento dos filhos sinais do que parecia ser abuso sexual. O pânico moral que tomou a comunidade escolar fez aquela acusação inicial se desdobrar em acusações múltiplas aos donos da escola e a outras cinco pessoas. No final, exames e diligências não confirmaram as acusações, o laudo médico se mostrou inconclusivo, buscas não encontraram evidências, e o inquérito acabou arquivado por falta de provas. Os acusados, porém, perderam seu trabalho e seu patrimônio, sofreram enorme impacto psicológico e viveram por anos com a desconfiança pública de ter participado de um abuso atroz.
Anos depois, o caso Escola Base passou a ser
ensinado nos cursos de comunicação e Direito. Tornou-se exemplo de como
imprensa, polícia e sociedade não deveriam agir em situações deste tipo. Mas
parece que o aprendizado com aquela tragédia dos anos 1990 foi esquecido.
Voltamos a cometer os mesmos erros no caso cão Orelha. O estrago só não foi
maior devido ao excelente trabalho jornalístico realizado pelo Fantástico, da
TV Globo, nos últimos dois domingos.
O cão comunitário Orelha vivia na Praia
Brava, em Florianópolis, cuidado pelos moradores. Entre a madrugada do dia 4 de
janeiro e a manhã do dia 5, recebeu uma pancada contundente na cabeça. O
cãozinho foi encontrado ferido no dia 5, levado ao veterinário, mas morreu em
decorrência dos ferimentos. A Polícia Civil investigou um grupo de adolescentes
e pediu a internação de um deles.
O caso despertou revolta depois de uma série
de boatos que deixaram efeitos persistentes, mesmo depois de desmentidos. O
primeiro foi espalhado por um porteiro de condomínio que se desentendera com um
grupo de adolescentes — em áudios enviados a um grupo de WhatsApp, ele sugeriu
que os rapazes haviam agredido o cão. Mais tarde, declarou à polícia e à
imprensa que não presenciou as agressões.
O segundo boato foi ainda mais danoso. Uma
moradora publicou nas redes sociais que o porteiro havia filmado o espancamento
do cão pelos adolescentes — vídeo que jamais existiu. Ela admitiu depois à
polícia que nunca viu tal gravação e baseou sua postagem no comentário de
terceiros numa rede social.
A confusão foi agravada porque, no mesmo
período, outro grupo de adolescentes foi acusado de tentar afogar outro cão
comunitário chamado Caramelo, na mesma praia. Por um momento, os dois casos
foram tratados como se fossem um só ou como se estivessem interligados — e isso
se comprovou falso. A imprensa alimentou também a hipótese, jamais confirmada,
de que os atos estavam ligados a desafios violentos em plataformas como o
Discord.
O que as evidências efetivamente mostram? O
cão sofreu uma pancada na cabeça e morreu na manhã do dia 5 de janeiro. Um
adolescente saiu do condomínio às 5h25 e voltou às 5h58, no intervalo em que a
polícia afirma ter ocorrido a agressão — e depois mentiu em depoimento alegando
ter ficado na piscina. O jovem diz que o erro se deveu ao período de semanas
entre os fatos e o depoimento. Não há nenhuma imagem da agressão, nenhuma
testemunha ocular, nenhuma arma, enfim, não há nenhuma prova material.
Três dias depois da conclusão do inquérito, o
Ministério Público (MP) de Santa Catarina apontou “inconsistências e lacunas” e
pediu diligências complementares. O promotor declarou que o pedido de
internação do adolescente, pedido pela Polícia Civil, será “reavaliado”.
Num cenário de investigação frágil, o que se
viu foi um festival de pressões políticas. O delegado-geral da Polícia Civil,
Ulisses Gabriel, surfou no caso e se lançou pré-candidato a deputado estadual.
Deu entrevistas exclusivas ao Portal Leo Dias, adotou publicamente o cão
Caramelo, defendeu a redução da maioridade penal e usou as redes sociais para
ganhar seguidores. Na última semana, o MP abriu investigação contra ele por
abuso de autoridade, violação de sigilo funcional e improbidade administrativa.
O governador Jorginho Mello também explorou o
caso: comentou dados de procedimento sigiloso envolvendo menores, pressionou
publicamente por resultados e questionou se “um jovem de 15 anos realmente não
sabe o que está fazendo” — alimentando o debate sobre maioridade penal a partir
de um caso em que o MP considerou as provas insuficientes.
Nada disso, porém, se compara à
irresponsabilidade do portal Leo Dias, que funcionou como motor do pânico
moral: dezenas de matérias sensacionalistas, entrevistas exclusivas com o
delegado-geral e a revelação do nome do adolescente apontado como autor antes
da conclusão do inquérito.
O resultado foi um linchamento contra quem
não havia sido julgado — e a maioria nem sequer foi indiciado. Fotos dos
adolescentes investigados circularam nas redes em violação do Estatuto da
Criança e do Adolescente. Seus nomes, os nomes de seus pais e de outros
parentes foram expostos nas redes sociais. Todos foram perseguidos e receberam
ameaças. Sua reputação ficará manchada por anos.
Quem se opôs à turba foi o Fantástico, com
duas reportagens delicadas e cuidadosas. O perfil do programa no Instagram foi
atacado por não validar a fúria coletiva, mas fez exatamente o que o jornalismo
deve fazer: ouviu a defesa, confrontou as evidências e revelou que todo o caso
era frágil. Se o caso Escola Base ensinou algo, é que não devemos ecoar a
indignação das ruas, mas resistir a ela quando os fatos exigem. No jornalismo,
o Fantástico fez sua parte. A pergunta é se nós, na sociedade, faremos a nossa.

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