sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Cão Orelha é nova Escola Base, por Pablo Ortellado

O Globo

Não devemos ecoar a indignação das ruas, mas resistir a ela quando os fatos exigem

Em março de 1994, duas mães procuraram a polícia de São Paulo após notarem no comportamento dos filhos sinais do que parecia ser abuso sexual. O pânico moral que tomou a comunidade escolar fez aquela acusação inicial se desdobrar em acusações múltiplas aos donos da escola e a outras cinco pessoas. No final, exames e diligências não confirmaram as acusações, o laudo médico se mostrou inconclusivo, buscas não encontraram evidências, e o inquérito acabou arquivado por falta de provas. Os acusados, porém, perderam seu trabalho e seu patrimônio, sofreram enorme impacto psicológico e viveram por anos com a desconfiança pública de ter participado de um abuso atroz.

Anos depois, o caso Escola Base passou a ser ensinado nos cursos de comunicação e Direito. Tornou-se exemplo de como imprensa, polícia e sociedade não deveriam agir em situações deste tipo. Mas parece que o aprendizado com aquela tragédia dos anos 1990 foi esquecido. Voltamos a cometer os mesmos erros no caso cão Orelha. O estrago só não foi maior devido ao excelente trabalho jornalístico realizado pelo Fantástico, da TV Globo, nos últimos dois domingos.

O cão comunitário Orelha vivia na Praia Brava, em Florianópolis, cuidado pelos moradores. Entre a madrugada do dia 4 de janeiro e a manhã do dia 5, recebeu uma pancada contundente na cabeça. O cãozinho foi encontrado ferido no dia 5, levado ao veterinário, mas morreu em decorrência dos ferimentos. A Polícia Civil investigou um grupo de adolescentes e pediu a internação de um deles.

O caso despertou revolta depois de uma série de boatos que deixaram efeitos persistentes, mesmo depois de desmentidos. O primeiro foi espalhado por um porteiro de condomínio que se desentendera com um grupo de adolescentes — em áudios enviados a um grupo de WhatsApp, ele sugeriu que os rapazes haviam agredido o cão. Mais tarde, declarou à polícia e à imprensa que não presenciou as agressões.

O segundo boato foi ainda mais danoso. Uma moradora publicou nas redes sociais que o porteiro havia filmado o espancamento do cão pelos adolescentes — vídeo que jamais existiu. Ela admitiu depois à polícia que nunca viu tal gravação e baseou sua postagem no comentário de terceiros numa rede social.

A confusão foi agravada porque, no mesmo período, outro grupo de adolescentes foi acusado de tentar afogar outro cão comunitário chamado Caramelo, na mesma praia. Por um momento, os dois casos foram tratados como se fossem um só ou como se estivessem interligados — e isso se comprovou falso. A imprensa alimentou também a hipótese, jamais confirmada, de que os atos estavam ligados a desafios violentos em plataformas como o Discord.

O que as evidências efetivamente mostram? O cão sofreu uma pancada na cabeça e morreu na manhã do dia 5 de janeiro. Um adolescente saiu do condomínio às 5h25 e voltou às 5h58, no intervalo em que a polícia afirma ter ocorrido a agressão — e depois mentiu em depoimento alegando ter ficado na piscina. O jovem diz que o erro se deveu ao período de semanas entre os fatos e o depoimento. Não há nenhuma imagem da agressão, nenhuma testemunha ocular, nenhuma arma, enfim, não há nenhuma prova material.

Três dias depois da conclusão do inquérito, o Ministério Público (MP) de Santa Catarina apontou “inconsistências e lacunas” e pediu diligências complementares. O promotor declarou que o pedido de internação do adolescente, pedido pela Polícia Civil, será “reavaliado”.

Num cenário de investigação frágil, o que se viu foi um festival de pressões políticas. O delegado-geral da Polícia Civil, Ulisses Gabriel, surfou no caso e se lançou pré-candidato a deputado estadual. Deu entrevistas exclusivas ao Portal Leo Dias, adotou publicamente o cão Caramelo, defendeu a redução da maioridade penal e usou as redes sociais para ganhar seguidores. Na última semana, o MP abriu investigação contra ele por abuso de autoridade, violação de sigilo funcional e improbidade administrativa.

O governador Jorginho Mello também explorou o caso: comentou dados de procedimento sigiloso envolvendo menores, pressionou publicamente por resultados e questionou se “um jovem de 15 anos realmente não sabe o que está fazendo” — alimentando o debate sobre maioridade penal a partir de um caso em que o MP considerou as provas insuficientes.

Nada disso, porém, se compara à irresponsabilidade do portal Leo Dias, que funcionou como motor do pânico moral: dezenas de matérias sensacionalistas, entrevistas exclusivas com o delegado-geral e a revelação do nome do adolescente apontado como autor antes da conclusão do inquérito.

O resultado foi um linchamento contra quem não havia sido julgado — e a maioria nem sequer foi indiciado. Fotos dos adolescentes investigados circularam nas redes em violação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Seus nomes, os nomes de seus pais e de outros parentes foram expostos nas redes sociais. Todos foram perseguidos e receberam ameaças. Sua reputação ficará manchada por anos.

Quem se opôs à turba foi o Fantástico, com duas reportagens delicadas e cuidadosas. O perfil do programa no Instagram foi atacado por não validar a fúria coletiva, mas fez exatamente o que o jornalismo deve fazer: ouviu a defesa, confrontou as evidências e revelou que todo o caso era frágil. Se o caso Escola Base ensinou algo, é que não devemos ecoar a indignação das ruas, mas resistir a ela quando os fatos exigem. No jornalismo, o Fantástico fez sua parte. A pergunta é se nós, na sociedade, faremos a nossa.

 

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