Valor Econômico
Caso o escândalo saia do garrote do STF e
volte para a primeira instância, o filme de 2014 começa a rodar
A presença do caso Master no Supremo, sob a relatoria cada vez mais contestada do ministro Dias Toffoli, é a última contenção que existe para que o escândalo não se torne, politicamente, uma guerra de todos contra todos como se tornou a Lava-Jato, entre 2014 e 2018. Muito se fala das forças pró-"Acordão", uma conjura para que as relações do caso envolvendo o banco liquidado com o meio político não venham à tona. Mas há uma corrente "desacordão" que ganha alento para que o caso tenha desdobramentos.
Essa corrente passa pelos adversários regionais
dos políticos envolvidos no escândalo e pelo bolsonarismo, que vê no episódio
um aríete para enfim pautar no Senado impeachment de integrantes do STF, em especial da
nêmesis do grupo, o ministro Alexandre
Moraes. Mas não reside só neste contingente, turbinado pelo
otimismo de que os tentáculos de Daniel
Vorcaro não lhes abraçarão.
Está também nas instituições de controle de
Estado que zelam por sua autonomia e tentam fazer frente a injuções políticas,
na Polícia Federal, no Banco Central e no próprio corpo técnico do Tribunal de
Contas da União (TCU). Dinâmica muito parecida com
essa fermentou a Lava-Jato na década passada.
Contribui ainda para o "desacordão"
a luz do dia. Qual a leitura política possível se pode ter diante da
constatação, admitida pelo próprio Toffoli,
de que o ministro é sócio de uma empresa que, alguns anos antes do escândalo
eclodir, vendeu um de seus principais ativos para um sócio de Vorcaro? Ficará muito mais difícil sustentar que o ministro é o nome
adequado para ser relator de um caso cuja permanência no Supremo já era
discutível.
Caso o escândalo saia do garrote do Supremo e
volte para a primeira instância, o filme de 2014 começa a rodar. Qualquer um
que tenha se debruçado sobre a história da Lava-Jato lembra das diversas tentativas
do meio jurídico e político de tentar costurar um acordo para abafar o caso,
dos vazamentos que sepultavam essas iniciativas, da confiança do governo de
então de que o escândalo apurado em Curitiba não iria atingi-lo diretamente, da
decisão dos envolvidos de colaborar com os investigadores para tentar diminuir
a força do cutelo sobre o próprio pescoço.
É possível ainda recorrer a uma analogia do
presente. Guardadas as proporções, pode tomar corpo um caso Epstein brasileiro. Nos
Estados Unidos, republicanos e democratas açularam as brasas dos segredos de um
magnata que, ao fim, compromete uma legião ainda não totalmente identificada.

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