O Globo
Faz alguns anos que o carro, velho de guerra,
tornou-se objeto de desejo valorizado e cultuado Brasil afora
Jorge Benjor lançou o álbum “23” em 1993, ano seguinte ao da última fornada do Opala pela Chevrolet. Os dois acontecimentos se cruzam neste 2026, às vésperas do carnaval, pela faixa “Engenho de Dentro”, terceira do disco. “Prudência e dinheiro no bolso; canja de galinha não faz mal a ninguém”, compôs e cantou o mestre. Foi cautela que faltou ao pré-candidato emergente nas pesquisas ao tripudiar com metáfora automobilística sobre o adversário nas eleições de outubro. Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro, ungido como herdeiro político do pai, Jair, preso na Papudinha por atentar contra a democracia, comparou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a um “Opala velho”. Metáfora é para quem sabe usar.
A comparação etarista, intencionalmente
ofensiva, esbarrou em inesperada realidade. Faz alguns anos que o Opala, velho
de guerra, tornou-se objeto de desejo valorizado e cultuado Brasil afora.
Depois do Fusca, insuperável, é o modelo de automóvel que reúne o maior número
de clubes especializados do país. Em torno do Opala, um caminhão (com
trocadilho) de história, feitos e paixões. Foi o primeiro carro de passeio da
Chevrolet fabricado no Brasil. Lançado em 1968, ficou em produção até abril de
1992. Da fábrica de São Caetano do Sul saiu 1 milhão de unidades. Em abril
passado, a revista “Autoesporte” escreveu que nenhum veículo serviu a tantos
propósitos:
— Nasceu como sedã familiar, mas se converteu
em cupê esportivo, tornou-se a perua (Caravan) mais desejada pelas famílias e
acabou como carro de patrão.
À época, o Opala se tornou objeto de desejo
por combinar mecânica robusta, design clássico e conforto. Especialistas
mencionam espaço interno amplo; bancos confortáveis; suspensão capaz de
absorver impacto de pistas irregulares; mecânica simples. Serviu a famílias,
foi viatura de polícia e veículo oficial de ministros, governadores e altos
funcionários da República. Os modelos particulares tornaram-se relíquias para
colecionadores; chegam a centenas de milhares de reais. Quem conta é o
jornalista Jason Vogel, especialista em automóveis:
— Quando deixou de ser fabricado, o Opala
entrou em decadência, mas nunca deixou de ter fã. Mesmo fora de produção,
continuou tendo uma legião de apaixonados. Agora, o que a gente está vendo é
uma supervalorização dele como carro de coleção. Há uma geração de pessoas que
nem eram nascida no tempo do Opala e se apaixonou por esse carro. Hoje, você
encontra versões do Opala custando mais de R$ 200 mil. Virou objeto de culto.
Flávio Bolsonaro foi escolhido sucessor pelo
pai e deverá disputar sua primeira eleição presidencial. Como mostrou recente
pesquisa Quaest, ele se consolidou como principal adversário de Lula, sem
Tarcísio de Freitas, governador bolsonarista de São Paulo, rivalizando com a
trinca de futuros ex-governadores arregimentados por Gilberto Kassab para o
PSD.
Na primeira consulta ao eleitorado depois da
manobra, os brasileiros demonstraram que preferem DNA a genéricos. O filho de
Bolsonaro lidera pela direita, a despeito de Ronaldo Caiado (Goiás) e Ratinho
Junior (Paraná) terem sinalizado indulto ao ex-presidente. No vídeo em que os
três, com o mesmo figurino, anunciam a filiação do governador goiano ao
partido, Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) chega a repetir parte do slogan
usado por Bolsonaro:
— Brasil acima de tudo.
A pesquisa Quaest evidenciou, de um lado, a
calcificação política que Felipe Nunes, diretor da empresa, e Thomas Traumann,
jornalista, já tinham identificado no livro “Biografia do abismo” (Harper
Collins, 2023). A disputa de 2026, tal como no pleito anterior, será entre Lula
e Bolsonaro. De outro, o levantamento apresentou um eleitorado indeciso, quando
chamado a indicar sua preferência eleitoral espontaneamente. Nesse critério,
19% escolhem Lula; 10%, Flávio; 2%, Jair. Dois em cada três não citam ninguém.
Quando a cartela de nomes é oferecida, o
eleitorado à esquerda fica com Lula; à direita, predominantemente com o filho
de Bolsonaro. De cada cem eleitores, 15 ou 16 dizem que votarão em branco,
anularão ou não comparecerão. É proporção alta, capaz de mudar o resultado de
um enfrentamento dominado pelos campos consolidados do tabuleiro político.
Seria caminho para uma terceira via que, faz anos, não empolga. Faltam cor,
entusiasmo, diversidade à corrida eleitoral. Os candidatos são mais do mesmo; o
eleitorado, sobretudo mulheres, negros, jovens, não se enxerga nas figuras
escolhidas pelos caciques partidários.
O desencanto é oportunidade para um candidato outsider, risco recorrente
para a democracia. Voltando a Benjor:
— Cuidado para não cair da bicicleta. Cuidado
para não esquecer o guarda-chuva.
Bom carnaval, leitores. Feliz ano novo.

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