O Globo
Os justiceiros tapam os ouvidos aos fatos
porque a regra número um do linchamento moral é a crença automática no acusador
Em 1994, a mãe de um menino de 4 anos ficou alarmada ao surpreender seu filho fazendo gestos que imitavam o que a criança descreveu como sendo algo que “homem faz com mulher”. À pergunta sobre onde ele havia aprendido aquilo, o menino respondeu ter sido numa casa a que teria sido levado por adultos. Contou ter chegado lá transportado pela mesma Kombi em que ia à escola — a Escola Base.
O resto da história muita gente conhece. A
mãe falou com outra mãe, o caso foi parar na polícia, os donos da escola, uma
professora e o motorista da Kombi foram acusados de abuso sexual. A imprensa
comprou o enredo, os acusados foram ameaçados, boicotados, execrados, suas
vidas foram destruídas e, ao final, o inquérito foi arquivado por “absoluta
falta de mínimos elementos contrários aos investigados”. O episódio é hoje
estudado em faculdades de jornalismo e Direito como paradigma de linchamento
midiático e irresponsabilidade na conduta investigativa.
O caso da morte do cão Orelha já seguiu parte
desse roteiro. Virou notícia a partir de duas acusações infundadas — um
porteiro espalhou que um grupo de adolescentes de Florianópolis, com que tivera
uma discussão, “parecia” ter espancado um cachorro. Em seguida, uma ativista da
causa animal divulgou a existência de um vídeo mostrando o cão — Orelha,
apresentado pela primeira vez — morto a pauladas pelos adolescentes. Os dois
autores das acusações admitiram depois que eram falsas, e a própria polícia
concluiu que ao menos três dos quatro acusados eram inocentes.
Em vão. A onda de fúria que tomou as ruas e
as redes engolfou todo o grupo de adolescentes, além de uma menor exposta pela
irresponsabilidade policial em vídeo do inquérito. Os meninos —cujos nomes,
endereços e fotos familiares foram revelados— continuam a receber ameaças. Não
saem mais de casa e não voltaram à escola depois do fim das férias. O rosto de
um deles, ao lado da palavra “assassino”, chegou a ilustrar cartazes em
passeatas que pediam justiça por Orelha. Seu pai teve de retirar o nome da
porta do escritório de advocacia para preservar o sócio, e a mãe foi obrigada a
fechar a loja virtual por causa da enxurrada de mensagens aterrorizantes que
recebeu. Parentes de dois adolescentes do grupo foram hospitalizados por causa
do episódio. Outro foi retratado em imagens feitas por IA sendo decapitado e
esfolado vivo. As imagens foram enviadas a sua mãe e à avó, numa demonstração
de que, se as massas potencializam a estupidez, as massas digitais a
potencializam muito mais.
O “ódio do bem” existe muito antes das redes
sociais, como mostrou o caso da Escola Base. Se a causa é nobre, tudo é
permitido. Orelha é uma causa nobre. Cão idoso e sem casa, era o tipo mais
vulnerável entre os cães — de resto, vulneráveis e inocentes por natureza, já
que “desprovidos dos vícios dos homens”, como escreveu Lord Byron (“Epitáfio
para um cão”). O desejo de defendê-lo e encontrar o responsável por sua morte
atroz são reações apenas humanas. Mas, na dinâmica do ódio permitido, enquanto
não se acha o culpado, vale o suspeito. Não importa que três dos acusados
tenham sido inocentados nem que se mostrem cada vez mais frágeis os indícios
sobre o agora único garoto formalmente investigado. Os justiceiros — da
internet e fora dela — tapam os ouvidos aos fatos porque a regra número um do
linchamento moral é a crença automática no acusador. Tanto melhor se os
acusados tiverem a forma de quatro adolescentes “riquinhos, mimados e cruéis”.
Acusar a vileza de alguém garante ao acusador
um upgrade moral. Quem acusa eleva sua reputação. Quem dá ao acusado o
benefício da dúvida arrisca-se a ser rebaixado. A torpeza pode se apresentar de
várias formas, inclusive na de bom coração.

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