sábado, 28 de fevereiro de 2026

Depois do carnaval, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

O confronto será, mais uma vez, entre dois ‘mitos’, o lulismo e o bolsonarismo, o que não deixará margem para conversas sérias

Fevereiro teve carnaval durante o mês inteiro. Sem que se saiba bem as razões, ampliaram o “tríduo momesco” para além do calendário. Agora, há um pré e um pós. Patrocinadores e foliões adoraram, mas muita gente reclamou.

Do outro lado da avenida, houve um desfile de sobressaltos e passos trôpegos. Nada de samba no pé. Foi um verdadeiro anticlímax, que estragou a festa de muitos graúdos.

Não se sabe por que a escola de samba Acadêmicos de Niterói resolveu levar à avenida um enredo sobre a vida e a obra do presidente Lula. Num ano eleitoral? Aceitemos que foi uma escolha espontânea dos dirigentes da escola, indiferentes ao mundo imperfeito em que vivemos. Afinal, é uma tolice querer colocar a arte a serviço dos objetivos imediatos de um movimento político, atitude que desrespeita a própria natureza da expressão estética. O governo e o PT acharam por bem deixar a banda passar, pois, numa democracia, cada um tem o direito de fazer o que acha melhor. Ninguém percebeu que a “exaltação da avenida” repercutiria negativamente e seria usada como munição pelos adversários.

Não deu outra. O que esperavam os governistas de um samba-enredo que canta “a família tradicional” dentro de uma lata de conservas para satirizar o conservadorismo de católicos e evangélicos? Foi preciso varrer para baixo do tapete o comprometimento de Lula com aquela provocação.

O desfile aguçou a disputa que se avizinha. Agora, os personalismos estão soltos: não teremos em 2026 uma eleição para escolher um plano de governo ou um projeto para o País. O confronto será, mais uma vez, entre dois “mitos”, o lulismo e o bolsonarismo, o que não deixará margem para conversas sérias. Não haverá uma “esquerda” combatendo uma “extrema direita”, nem uma ala “patriótica” voltada contra o “imperialismo”. Nem mesmo a democracia será defendida ou atacada. Será um embate para definir quem tem maior poder de conquistar os independentes, cerca de 30% dos eleitores que se dizem nem lulistas, nem bolsonaristas. Segundo as pesquisas, esse contingente tende para a centro-direita, mas é bastante heterogêneo em termos morais e é, majoritariamente, hostil à política e aos políticos. Portanto, ao governo.

A baixaria está deslocando a política. Agora, em vez de discussão, tem-se a troca de acusações. Em vez de ideias e proposições, temos refregas para saber quem se saiu melhor numa exibição de escolas de samba.

Fevereiro teve mais: a crise Master se esparramou e derramou sujeira por todos os lados. Pôs no olho do furacão o ministro Dias Toffoli, envolvido em relações suspeitas com o banco e seu dono, Daniel Vorcaro. O ministro passou a meter os pés pelas mãos dia após dia, envergonhando-se publicamente. Numa reação defensiva, o Supremo Tribunal Federal (STF) afastou-o do caso, não sem antes enchê-lo de elogios. Foi uma manobra tipicamente corporativa, conseguida graças a um fórceps, pois o colegiado se dividiu. Em vez de tirar o Supremo Tribunal da crise, fez com que ele mergulhasse nela de cabeça e corpo inteiro. Hoje, não dá para saber onde esse mergulho vai nos levar. Mas dá para dizer que o STF está desgastado e o tema da corrupção e da troca de favores entrou novamente na pauta.

Tudo somado, fevereiro não deu qualquer indício de que será desatado o nó que asfixia o País. Seguiremos sem qualquer agenda digna do nome. Está aí a miséria política e moral de nossas elites. Elas atuam com a sensação de que o País, em sua superfície, está indo bem. O silêncio que produzem só poderá ter como resultado a reprodução do que já existe, sem qualquer passo à frente.

A indignação permanece suspensa no ar, embalada pelos efeitos do caso Master. A rebeldia antissistema produz retóricas inflamadas. Mas nada disso se converte em política democrática. No momento, as vozes indignadas tanto podem dobrar à esquerda como à direita. As urnas dirão quem vencerá uma disputa que promete ser sangrenta.

Por fim, fevereiro teve uma nota de tristeza: a morte do cientista político José Álvaro Moisés, ocorrida no dia 13, aos 81 anos. Moisés teve uma carreira brilhante na Universidade de São Paulo (USP). No início de 1980, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT). Pouco antes do governo FHC, junto com Francisco Weffort, afastou-se do partido. Weffort foi ministro da Cultura, e Moisés dirigiu a área de política cultural. Ambos passaram a fortalecer o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e se tornaram críticos ao PT. Nos últimos anos, atuou como professor sênior no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), onde coordenou o projeto Qualidade da Democracia e integrou o Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas (NUPPS), que dirigiu por duas décadas.

Moisés atuava nos movimentos “Direitos Já! Fórum Pela Democracia” e “Roda Democrática”, preocupado em viabilizar uma frente política que clareasse o terreno da luta pela democracia, com seus impasses, exigências e possibilidades. Uma de suas últimas atividades públicas foi endossar o manifesto “Fortalecer o Diálogo para Aprofundar a Democracia”, impulsionado pelo Instituto Ética e Democracia. Sua ausência no terreno democrático será sentida demais.

 

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