Correio Braziliense
O risco político não está apenas no
Judiciário. O episódio fornece munição à oposição e, sobretudo, às forças de
centro que articulam uma alternativa eleitoral fora da polarização
Petistas e juristas alinhados ao governo minimizam o impacto do desfile da Acadêmicos de Niterói, na Marquês de Sapucaí, sob o argumento de que não houve violação explícita da legislação eleitoral. É mesmo o que precisam fazer. Formalmente, de fato, a decisão da presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Cármen Lúcia, ao liberar a apresentação, respeitou o princípio constitucional da liberdade de expressão artística — impedir o desfile configuraria censura prévia. Mas a política, como se sabe, raramente se resolve apenas na esfera formal. E é justamente aí que os estrategistas da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva têm razões de sobra para pôr as barbas de molho.
O problema não é no gesto isolado, mas na
cadeia que se projeta no tempo. “As consequências vêm depois”, advertia o
Conselheiro Acácio. O desfile não entrará para a história por seus méritos
estéticos, mas pode entrar como jogada de marketing eleitoral e jurisprudência
eleitoral, pela controvérsia jurídica que provocou: a suspeita de propaganda
eleitoral antecipada e de abuso de poder político. Trata-se de um prato cheio
para a oposição, que já protocolou umas 10 representações no TSE pedindo a
inelegibilidade de Lula, e evocou precedentes recentes, como a condenação de
Jair Bolsonaro pela reunião com diplomatas estrangeiros em que atacou a
confiabilidade das urnas eletrônicas.
O contexto institucional torna o episódio
ainda mais delicado. Em junho, Cármen Lúcia deixará a presidência do TSE e os
ministros Nunes Marques e André Mendonça, ambos indicados por Bolsonaro,
assumirão, respectivamente, a presidência e a vice-presidência da Corte
Eleitoral. Ainda que não se projete, hoje, uma condenação capaz de tornar Lula
inelegível — sobretudo sendo o favorito na disputa —, a judicialização do
episódio já produz desgaste político, ruído institucional e incerteza
estratégica. E pode custar uma multa milionária.
A favor de Lula pesam alguns cuidados
adotados de última hora: a decisão de impedir que a primeira-dama, Janja Lula
da Silva, desfilasse no último carro alegórico, como inicialmente previsto, e a
opção por permanecer no camarote do prefeito Eduardo Paes, aliado político,
limitando-se a gestos protocolares e os beijos às bandeiras das demais
agremiações. Contra ele, contudo, fala o conteúdo do desfile em si, que
recorreu ostensivamente a símbolos clássicos de campanha: o refrão “Olê, olê,
olê, olá, Lula, Lula”, o número 13 do PT e a exaltação direta de políticas
públicas do atual governo, compondo um quadro difícil de dissociar do
calendário eleitoral. Sem falar nos ataques aos que foram chamados
“neoconservadores em conserva”, onde Lula sempre enfrenta dificuldades
eleitorais, como o agronegócio e os evangélicos.
Do ponto de vista estritamente jurídico, o
TSE agiu corretamente ao não barrar o desfile. Mas isso não equivale a um
salvo-conduto. A própria ministra Cármen Lúcia advertiu para o “risco concreto
e plausível” de ocorrência de ilícitos, a serem avaliados posteriormente. O
Carnaval, por definição, é espaço de transgressão simbólica, sátira e crítica
ao poder, mas não eleitoral. Ao optar por homenagear um presidente vivo, no
exercício do cargo e candidato à reeleição, às vésperas do pleito, a Acadêmicos
de Niterói subverteu essa lógica e tensionou deliberadamente os limites entre
manifestação cultural e propaganda política.
Onde mora o perigo
O risco político não está apenas no
Judiciário. O episódio fornece munição narrativa à oposição e, sobretudo, às
forças de centro que articulam uma alternativa eleitoral fora da polarização
tradicional. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, trabalha para viabilizar uma
candidatura competitiva, tendo como principal aposta o governador do Paraná,
Ratinho Junior, sem descartar outros nomes, como Eduardo Leite e Ronaldo
Caiado. Nesse cenário, cada desgaste simbólico do presidente fortalece o
discurso de que Lula representa um ciclo em esgotamento.
Não por acaso, editoriais dos principais
jornais apontaram o desfile como um exemplo de campanha antecipada disfarçada
de festa popular. No mercado financeiro, a chamada Faria Lima não esconde seu
crescente entusiasmo com uma candidatura do PSD, vista como mais previsível e
menos polarizadora. Kassab avança na montagem de palanques estaduais onde Lula
enfrenta maior rejeição, como Rio Grande do Sul, Paraná, Rondônia, ou tem
palanques fortes, como Pernambuco e Sergipe. Num ambiente em que a desaprovação
ao governo ainda permanece elevada, apesar da melhora recente dos indicadores
econômicos.
A conjuntura econômica, porém, joga a favor
do presidente: inflação sob controle, desemprego baixo, renda em recuperação e
expectativas mais positivas quanto ao crescimento podem reduzir a rejeição e
ampliar sua aprovação. Ainda assim, mesmo para o marqueteiro de Lula, o
secretário de Comunicação Social do Governo, Sidônio Palmeira, o episódio da
Sapucaí foi um erro de cálculo político, um tiro no próprio pé. O eleitor que
rejeita Lula não mudou de opinião por causa do desfile; o eleitor fiel ganhou,
no máximo, um jingle reciclado; e o eleitor volátil, aquele que decide
eleições, teve mais motivos para irritação do que para reconciliação.
Ao permitir que a maior festa popular do país
fosse atravessada por símbolos explícitos da disputa eleitoral e comparecer ao
desfile da Acadêmicos de Niterói, Lula armou, para si mesmo, uma casa de
caboclo: entrou confiante, mas saiu deixando rastros para adversários, juristas
e candidatos alternativos explorarem. Na política, em ano eleitoral, nem tudo
que é permitido é aconselhável e o aplauso não é sinônimo de voto.
Em tempo: a grande campeã do carnaval de 2026
foi a Unidos do Viradouro, de Niterói, com o enredo Pra cima, Ciça, uma
homenagem a Moacyr Silva Pinto, aos 69 anos, seu mestre de bateria. A
Acadêmicos de Niterói, em último lugar, voltou para a Série Ouro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.