quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Fogo amigo, por Merval Pereira

O Globo

Eleitorado evangélico pode se tornar mais arredio ainda aos apelos do presidente Lula depois do desfile

Entre os vários efeitos colaterais negativos que o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói pode ter trazido para a campanha eleitoral do presidente Lula, um é explorado nas redes sociais com avidez pelos bolsonaristas: a crítica da escola aos neoconservadores, especialmente às “famílias enlatadas”, entendidas como ridicularização dos evangélicos, uma das forças eleitorais brasileiras atrás da qual os petistas correm em busca de apoio. É um eleitorado majoritariamente bolsonarista, que pode se tornar mais arredio ainda aos apelos do presidente Lula depois do desfile.

Os petistas alegam que essa é uma prova de que o governo não interferiu no enredo da escola — um elogio ao presidente Lula, sua história de vida e seu governo. A importância dos evangélicos no jogo eleitoral foi analisada por diversos especialistas no ano passado, na expectativa do resultado do Censo Demográfico de 2022 do IBGE divulgado em junho de 2025. O crescimento dos evangélicos no país é vertiginoso e, mesmo com o ritmo tendo diminuído, eles chegaram a cerca de 27% da população.

Uma carta da Mar Asset de janeiro de 2025, escrita pelo fundador e gestor, Bruno Coutinho, é um dos trabalhos que analisaram os resultados eleitorais do ponto de vista religioso. Em 2010 e 2014, o PT venceu as eleições presidenciais com 55% dos votos dos não evangélicos e 50% dos evangélicos. Como os não evangélicos eram a ampla maioria da população, a vitória se deu com certa folga. A partir de 2016, notou-se uma mudança estrutural na forma como os evangélicos votam. O protagonismo das pautas progressistas defendidas pelos governos petistas, combinado aos escândalos de corrupção da Lava-Jato, levou os fiéis a reduzir o apoio ao PT para apenas 30%.

Nas eleições presidenciais de 2018, na vitória de Bolsonaro, o PT, por meio de Fernando Haddad, até obteve mais votos entre não evangélicos, mas conquistou apenas 31% dos votos de evangélicos. Nas eleição de 2022, que selou a vitória de Lula pela menor margem já registrada, a conversão do eleitorado evangélico pelo candidato petista permaneceu nos mesmos 31%, enquanto, entre não evangélicos, Lula obteve expressivos 60%, patamar decisivo para assegurar sua vitória apertada. Certamente levou a isso a campanha eleitoral dirigida ao centro democrático, uma promessa de governo de união nacional que se fortaleceu depois da revelação da tentativa de golpe.

O número de protestantes no Brasil segue crescendo em ritmo superior ao da população total, embora tenha desacelerado na última década. Ao mesmo tempo, a conversão de votos nacionais por partidos progressistas vem diminuindo a cada dia. As eleições presidenciais de 2022 foram marcadas pela alta rejeição ao então presidente Bolsonaro. Ainda assim, pudemos ver o viés de direita do eleitorado expresso nas eleições a governadores e nos mandatos legislativos, como deputado federal e estadual.

As eleições municipais de 2024 aprofundaram o movimento à direita observado desde 2016. Estudos mostram que o crescimento dos templos protestantes se inicia no Sudeste, avança para o Sul, segue para o Centro-Oeste, alcança o Norte e, mais recentemente, começa a ganhar espaço no Nordeste. Sob a ótica geográfica, a concentração de votos nordestinos em candidatos petistas começa a ser ameaçada pela expansão da religião evangélica nessa região. Essa mudança de padrão de comportamento e valores sociais continuará tendo impacto relevante sobre a dinâmica política do Brasil no futuro.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.