O Globo
Eleitorado evangélico pode se tornar mais
arredio ainda aos apelos do presidente Lula depois do desfile
Entre os vários efeitos colaterais negativos que o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói pode ter trazido para a campanha eleitoral do presidente Lula, um é explorado nas redes sociais com avidez pelos bolsonaristas: a crítica da escola aos neoconservadores, especialmente às “famílias enlatadas”, entendidas como ridicularização dos evangélicos, uma das forças eleitorais brasileiras atrás da qual os petistas correm em busca de apoio. É um eleitorado majoritariamente bolsonarista, que pode se tornar mais arredio ainda aos apelos do presidente Lula depois do desfile.
Os petistas alegam que essa é uma prova de
que o governo não interferiu no enredo da escola — um elogio ao presidente
Lula, sua história de vida e seu governo. A importância dos evangélicos no jogo
eleitoral foi analisada por diversos especialistas no ano passado, na
expectativa do resultado do Censo Demográfico de 2022 do IBGE divulgado em
junho de 2025. O crescimento dos evangélicos no país é vertiginoso e, mesmo com
o ritmo tendo diminuído, eles chegaram a cerca de 27% da população.
Uma carta da Mar Asset de janeiro de 2025,
escrita pelo fundador e gestor, Bruno Coutinho, é um dos trabalhos que
analisaram os resultados eleitorais do ponto de vista religioso. Em 2010 e
2014, o PT venceu as eleições presidenciais com 55% dos votos dos não
evangélicos e 50% dos evangélicos. Como os não evangélicos eram a ampla maioria
da população, a vitória se deu com certa folga. A partir de 2016, notou-se uma
mudança estrutural na forma como os evangélicos votam. O protagonismo das
pautas progressistas defendidas pelos governos petistas, combinado aos
escândalos de corrupção da Lava-Jato, levou os fiéis a reduzir o apoio ao PT
para apenas 30%.
Nas eleições presidenciais de 2018, na
vitória de Bolsonaro, o PT, por meio de Fernando Haddad, até obteve mais votos
entre não evangélicos, mas conquistou apenas 31% dos votos de evangélicos. Nas
eleição de 2022, que selou a vitória de Lula pela menor margem já registrada, a
conversão do eleitorado evangélico pelo candidato petista permaneceu nos mesmos
31%, enquanto, entre não evangélicos, Lula obteve expressivos 60%, patamar
decisivo para assegurar sua vitória apertada. Certamente levou a isso a
campanha eleitoral dirigida ao centro democrático, uma promessa de governo de
união nacional que se fortaleceu depois da revelação da tentativa de golpe.
O número de protestantes no Brasil segue
crescendo em ritmo superior ao da população total, embora tenha desacelerado na
última década. Ao mesmo tempo, a conversão de votos nacionais por partidos
progressistas vem diminuindo a cada dia. As eleições presidenciais de 2022
foram marcadas pela alta rejeição ao então presidente Bolsonaro. Ainda assim,
pudemos ver o viés de direita do eleitorado expresso nas eleições a governadores
e nos mandatos legislativos, como deputado federal e estadual.
As eleições municipais de 2024 aprofundaram o
movimento à direita observado desde 2016. Estudos mostram que o crescimento dos
templos protestantes se inicia no Sudeste, avança para o Sul, segue para o
Centro-Oeste, alcança o Norte e, mais recentemente, começa a ganhar espaço no
Nordeste. Sob a ótica geográfica, a concentração de votos nordestinos em
candidatos petistas começa a ser ameaçada pela expansão da religião evangélica
nessa região. Essa mudança de padrão de comportamento e valores sociais
continuará tendo impacto relevante sobre a dinâmica política do Brasil no
futuro.

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