Valor Econômico
Estabilidade institucional do banco central dos EUA vem sendo colocada à prova
Em um contexto internacional de fragilidade fiscal persistente e inflação resistente, a credibilidade das instituições econômicas voltou a ter preço - e elevado, refletido em juros mais altos, inflação mais perseverante e deterioração da dinâmica da dívida pública. Após décadas em que a estabilidade monetária foi tratada como um problema superado nas economias avançadas, pressões políticas recentes reacendem um debate que parecia encerrado: os custos econômicos, financeiros e institucionais da interferência na condução da política monetária, mesmo em democracias consolidadas.
Nos EUA, a pressão aberta do presidente
Donald Trump sobre o Federal Reserve para forçar a redução da taxa de juros
trouxe esse tema novamente ao centro da discussão. O argumento apresentado -
impulsionar o crescimento da economia e reduzir o custo do financiamento da
dívida pública - é recorrente em contextos de contenção inflacionária e aperto
fiscal. O problema é que a história econômica sugere que a tentativa de
subordinar a política monetária a objetivos de curto prazo costuma produzir
efeitos opostos aos desejados.
A independência do Fed não é um detalhe
institucional, mas o resultado de longo e custoso processo. Criada em 1913, a
autoridade monetária passou por sucessivas reformas, culminando no Fed-Treasury
Accord de 1951, que restabeleceu a autonomia da política monetária após os excessos
do financiamento da Segunda Guerra. Desde então, a credibilidade do Fed
tornou-se um dos pilares centrais da estabilidade macroeconômica americana.
Essa estabilidade institucional vem sendo
colocada à prova. Além de críticas públicas ao chairman do Fed, Jerome Powell,
a investigação do Departamento de Justiça por suposto falso testemunho do
dirigente ao Senado foi amplamente interpretada como uma forma indireta de
pressão política.
É nesse contexto que se insere a indicação de
Kevin Warsh à presidência do Fed. Ex-diretor do banco central e figura
respeitada nos mercados financeiros, Warsh possui credenciais técnicas sólidas
e histórico associado a uma condução ortodoxa da política monetária.
A reação inicial relativamente favorável dos
mercados à indicação não elimina a preocupação com o período prolongado de
pressões explícitas do Executivo. Mercados tendem a precificar nomes e
expectativas de curto prazo, não arranjos institucionais de longo prazo. A
aceitação de Warsh pode refletir mais a busca por previsibilidade imediata que
uma avaliação sobre a resiliência da autonomia do Fed.
Nesse sentido, o episódio transcende a
sucessão de um dirigente específico. A combinação de críticas públicas,
investigações administrativas e substituições estratégicas cria um precedente
institucional perigoso. Mesmo que o processo respeite formalmente as regras, a
normalização desse padrão tende a corroer, de forma cumulativa, o estoque de
credibilidade institucional.
A literatura econômica é robusta em mostrar
que a independência dos bancos centrais contribui para maior estabilidade
macroeconômica, ao ancorar expectativas e mitigar a dominância fiscal. Mesmo
quando ataques à autonomia não prosperam formalmente, a simples dúvida lançada
sobre a solidez das instituições já é suficiente para elevar incertezas,
expectativas inflacionárias e o custo do financiamento público.
Experiências internacionais reforçam a
importância da autonomia da autoridade monetária. O caso da Turquia é
emblemático. A partir de 2019, sucessivas intervenções do presidente Erdogan no
BC trouxeram custos sociais elevados e perda significativa de bem-estar.
As experiências de EUA e Turquia oferecem
lições relevantes para o Brasil. Embora a autonomia formal do Banco Central
venha sendo preservada, o Brasil enfrenta fragilidades institucionais em outras
frentes igualmente centrais para a estabilidade macroeconômica. No caso
brasileiro, o problema central não é a ausência de regras, mas a erosão
progressiva de sua credibilidade operacional.
Episódios recentes são ilustrativos. O
imbróglio envolvendo o banco Master gerou prejuízos relevantes a fundos de
pensão de servidores estaduais e municipais, expondo deficiências de governança
e supervisão. A opacidade na execução das emendas parlamentares tem favorecido
a má alocação de recursos públicos. Soma-se a isso a gestão claudicante de
estatais como Correios e a administração deficiente de passivos relevantes,
como precatórios e obrigações previdenciárias.
Nesse contexto, o novo arcabouço fiscal, em
vigor desde 2024, passou a ser avaliado com crescente ceticismo. Como
argumentam Manoel Pires e Bráulio Borges, a substituição recorrente de regras
fiscais enfraquece a política econômica ao reduzir previsibilidade, coordenação
intertemporal e credibilidade. A instabilidade institucional, nesse sentido,
tende a elevar - e não reduzir - o custo do ajuste fiscal.
O desafio, portanto, não é reinventar o
regime fiscal, mas fortalecê-lo. Isso passa por critérios claros e restritivos
para as exceções à regra, maior responsabilização do Congresso na criação de
despesas e renúncias de receita, modernização da Lei de Responsabilidade Fiscal
e fortalecimento do controle sobre estatais e fundos públicos. Decisões que
caminham na direção oposta - como a ampliação de exceções ao teto - sinalizam
riscos que não podem ser ignorados.
Em síntese, a erosão institucional opera de forma silenciosa, mas cumulativa, como um imposto implícito sobre a economia. Cada concessão que fragiliza regras fiscais ou constrange a autonomia da política monetária encarece o crédito, prolonga a inflação e reduz o crescimento potencial. O ajuste não deixa de ocorrer - apenas se manifesta de forma mais difusa, tardia e regressiva. Preservar instituições não é um detalhe técnico: é condição necessária para impedir que o custo da instabilidade recaia, de forma recorrente, sobre toda a sociedade.

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