Folha de S. Paulo
A incorporação da lógica do mercado pela
religião reconfigura o sentido da fé no século 21
Prosperidade passa a ser sinal de bênção divina, enquanto pobreza, de fracasso espiritual
[RESUMO] O texto analisa a ascensão
da teologia da
prosperidade como expressão de um deslocamento mais amplo da fé
em direção à lógica do mercado. Ao transformar riqueza material em sinal de
bênção e pobreza em falha espiritual, essa teologia submete o sagrado à
gramática do desempenho, do cálculo e da recompensa. O antigo conceito bíblico
de Mamon reaparece como símbolo desse processo, no qual o dinheiro deixa de ser
meio e passa a ocupar o centro da experiência religiosa. O resultado é uma
espiritualidade funcional, que oferece consolo individual, mas esvazia o
mistério, enfraquece a crítica social e legitima desigualdades em nome da fé.
Em muitos templos pelo país, fiéis são
convidados a subir ao púlpito para relatar conquistas materiais: a casa
financiada, o carro novo, a empresa que prosperou "pela fé".
Carteiras de trabalho, chaves de carro e contratos são ungidos em cultos
transmitidos ao vivo. Pastores falam em "sementes",
"investimentos" e "retornos". O vocabulário não é casual.
Ele traduz uma teologia em que prosperidade material se tornou sinal de bênção
divina, e a pobreza, indício de falha espiritual.
Esse deslocamento não surgiu do nada. Ele tem
nome antigo. Mamon é um conceito quase arquetípico que atravessa a teologia
ocidental desde que um carpinteiro da Galileia fez uma advertência radical:
"Não podeis servir a Deus e a Mamon" (Mateus 6:24).
No aramaico, māmōnā significava riqueza ou propriedade. No discurso de Jesus, porém, o termo se personifica: deixa de ser coisa e se torna poder rival, uma soberania que exige lealdade exclusiva. Mamon não é o dinheiro no bolso, mas o dinheiro entronizado no coração.
Em um mundo secularizado, no qual grandes
sistemas de crença perderam força, Mamon não apenas sobreviveu como prosperou.
Sua manobra mais eficaz foi deixar de se apresentar como adversário da fé para
tornar-se seu patrocinador.
A infiltração de Mamon nas religiões
contemporâneas se expressa de forma mais visível na chamada teologia da
prosperidade, nascida nos Estados
Unidos e hoje globalizada. Nela, a lógica tradicional do
cristianismo sofre uma inversão decisiva: a riqueza passa a ser sinal
inequívoco do favor divino, enquanto a pobreza é associada à falta de fé, ao
pecado ou à maldição.
Deus é então reimaginado como uma espécie de
sócio-investidor celestial, disposto a "derramar bênçãos" desde que o
fiel demonstre confiança —quase sempre por meio de atos financeiros. A fé se
materializa em doações, ofertas especiais e "votos de sacrifício",
tratados como investimentos espirituais com promessa de retorno. Essa lógica
não se limita ao neopentecostalismo: ela se infiltra em espiritualidades
seculares, como a chamada Lei da Atração, que promete que o universo conspirará
a favor de quem "vibrar na frequência da abundância".
As práticas que decorrem dessa visão são
explícitas e ritualizadas. Campanhas financeiras estabelecem desafios de doação
para "quebrar correntes da miséria". O léxico é importado do mundo
dos negócios: fala-se em honrar a Deus com as primícias, devolver o dízimo para
afastar o "espírito devorador" e destravar bênçãos "sem
medida". O púlpito se converte em vitrine de sucesso material, e o
testemunho de fé se mede por bens adquiridos.
Nesse modelo, a relação com o divino assume
um caráter profundamente transacional. A oração se aproxima de uma ordem de
compra; a bênção, de um dividendo esperado. A fé se organiza como um sistema de
recompensas, com placar visível nos extratos bancários. É a gamificação da
espiritualidade.
As consequências são profundas. A primeira é uma
inversão ética. A cobiça, antes condenada, reaparece sob o nome de "visão
de futuro" ou "fé ousada". A segunda é um individualismo
espiritual radical, no qual salvação e bem-estar dependem exclusivamente da
performance pessoal. O senso de comunidade e a responsabilidade coletiva se
enfraquecem.
No plano social, a Teologia de Mamon oferece
uma justificativa conveniente para a desigualdade. Se a riqueza é sinal de
bênção, a pobreza se transforma em culpa individual. O sistema econômico deixa
de ser questionado, e a vítima passa a ser responsabilizada por sua própria
condição. Desmonta-se, assim, a base teológica da caridade, da justiça social e
da compaixão, pilares históricos do cristianismo. O "amai-vos uns aos
outros" cede lugar a um silencioso "enriquecei-vos por mérito".
O resultado é uma espiritualidade que
anestesia. Ela promete consolo e ascensão individual, mas evita qualquer
enfrentamento das estruturas que produzem a pobreza que diz combater. O sagrado
se adapta sem atrito à lógica do capitalismo tardio.
Em suma, a Teologia de Mamon representa a
rendição de parte do campo religioso à lógica do mercado. É o Bezerro de Ouro
reconstruído em alta definição, com marketing digital e transmissão ao vivo.
Mamon não exige altares de pedra, mas de vidro e aço: arranha-céus, shoppings,
telas de smartphones. O impacto final é a erosão do mistério e a transformação
do sagrado em mais um produto na prateleira da vida contemporânea.
O desafio para as religiões —e para os
buscadores sinceros— não é exorcizar o dinheiro, mas destroná-lo. É reaprender
a distinguir o que tem preço do que tem valor, antes que a cotação da alma
humana despenque no pregão do esquecimento
*Analista junguiano, mestre e doutor em
ciências da religião e fundador do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e
Pesquisa). Autor de "Dinheiro, Saúde e Sagrado"

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