O Estado de S. Paulo
Se seu alvos não contam com meios que o façam mudar de objetivo, presidente segue em frente
O poder de dissuasão determina desfechos das crises desencadeadas por Donald Trump. Ele jamais ameaça Xi Jinping e Vladimir Putin porque reconhece neles ditadores de grandes potências nucleares e, no caso chinês, econômica, sem limites para usar esse poderio. Com a Coreia do Norte, de status semelhante, embora menor, Trump ameaçou, depois cortejou Kim Jong-un e finalmente desistiu, diante do custo alto demais.
Pelo menos desde o livro A Arte de Negociar, de 1987, Trump tem reiterado que não persegue objetivos fixos, que enfraqueceriam sua posição de negociador. Esse princípio se confirma quando o presidente se apega demais a um objetivo, como o Nobel da Paz.
Diante do ardor com que Trump deseja um
cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia, Putin o faz de gato e sapato. A alternativa
é pressionar a Ucrânia, o lado mais fraco, a fazer concessões. Volodmir
Zelenski e os líderes europeus resistem com tanta firmeza, e a ideia de ceder
território não conquistado pelo invasor é tão obscena, que Trump está demorando
a enfiar o acordo goela abaixo de Kiev. Mas é o que ele pretende.
Trump tentou anexar o Canadá. Membro da Otan
e do G7, o vizinho resistiu e, graças às ameaças, o governo liberal obteve a
reeleição, contra o que previam pesquisas meses antes. Trump agora tenta cercear
as relações Canadá-China.
Na Venezuela, o objetivo era derrubar o regime, acusado de “narcoterrorismo”. Diante do custo militar elevado, Trump trocou por dominar o petróleo, o que conseguiu com a captura d e Nicolás Maduro . Na Groenlândia, o objetivo inicial era se apropriar da ilha. Os europeus enviaram tropas e ameaçaram anular o acordo comercial do ano passado. Trump aceitou promessas de novas bases e de negar acesso russo e chinês.
FORÇA. Mas, quando a vítima não tem meios de
dissuasão, Trump não muda de objetivo. Ele ameaçou intervir no Panamá se o país
não rompesse o contrato com a CK Hutchison Holdings, de Hong Kong, para operar
um porto no Pacífico e outro no Atlântico. A Suprema Corte panamenha anulou o
contrato. Em Gaza, Trump conseguiu o cessar-fogo entre Israel e o Hamas porque
os israelenses dependem do armamento e da ajuda militar americana.
Trump agora testa seu poder sobre o Irã. Até
aqui, os mísseis iranianos capazes de atingir Israel e aliados dos EUA no Golfo
têm servido de dissuasão. Se achar que pode destruir essa capacidade, decapitar
o regime e instalar um novo governo, a um custo suportável para os eleitores
americanos, Trump seguirá em frente.

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