Paulinho, como nós o chamávamos, aproximou-se do PCB logo após a Declaração de Março de 1958, partindo, em 1963, para Moscou, onde cursaria a Escola de Quadros do PCUS. Ao retornar ao Brasil, em 1965, mergulhou imediatamente na clandestinidade. Viveu parte da vida escondido, sem contato com a família de origem, ou na cadeia. Mas nunca esmoreceu, nem durante as torturas terríveis que sofreu, em Juiz de Fora. Ao seu lado, sempre, sua companheira Geralda, a querida Baixinha. Certa vez - lá se vão algumas dezenas de anos - eu comentei com sua filha em Belo Horizonte, em um encontro partidário, que, se eu fosse mencionar cinco pessoas extraordinárias que conheci na vida, seu pai estaria entre elas. Mantenho tranquilamente o que digo até hoje.
De Paulo Elisiário eu ouvi, pela primeira vez
de um dirigente comunista, que o Estado pelo qual deveríamos lutar seria
“formalmente social-democrata”, ou seja, deveria integrar os valores do
liberalismo à luta pelas mudanças sociais. De um lado, se não deveríamos nos
limitar a gerir o capitalismo, como os social-democratas o fizeram, teríamos,
de outro, que reconhecer a importância do liberalismo clássico, dos direitos
humanos à liberdade de reunião e de opinião. Era uma conquista da Humanidade,
valores da civilização. O nosso caminho seria democrático.
Pouco antes de falecer, Giocondo Dias
comentou com três ou quatro companheiros, se tanto, que Paulo Elisiário e
Salomão Malina eram os dois maiores quadros do Partido e que tanto um quanto o
outro poderiam substituí-lo na secretaria geral. Coloquei essa informação na
versão original da minha modesta biografia sobre o Giocondo e repassei ao
Paulinho Elisiário para uma leitura atenta, mas ele pediu para que eu retirasse
essa passagem. Não concordei e mantive. E saiu dessa forma no livro.
Não há como deixar de lembrar uma passagem da
obra Vida dos homens ilustres, de Plutarco, quando o grande biógrafo grego
de Alexandre e César afirma que “nem sempre...são as ações mais brilhantes as
que mostram melhor as virtudes” dos homens. O que ensina mais sobre as pessoas
são os pequenos gestos, sem dúvida. Paulo Elisiário Nunes, o querido
companheiro Paulinho, com sua humanidade, foi e continua sendo uma referência
em minha trajetória pessoal.
Outro alagoano incomum, Adalberto Timóteo da
Silva, também me ensinou muito sobre a vida social brasileira. Oriundo da zona
canavieira de seu estado, Adalberto chegou a ser escravizado por três anos em
uma fazenda em Sergipe, da qual conseguiria fugir a duras penas, nos anos 30 do
século passado. Perambulou pela Bahia, até dar com os costados no interior do
Estado do Rio de Janeiro.
Preso em 1938, em plena vigência do Estado
Novo de Getúlio Vargas, foi torturado na cadeia, por integrar uma base de
padeiros ligada ao PCB. Na redemocratização de 1945, trabalhou em fábricas
cariocas, como tecelão. Viveu na União Soviética nos anos 50, enfrentou
clandestinidades e teve sua companheira sacrificada pelos esbirros da ditadura
na esteira do golpe de 1964. Quando lembrava sua trajetória no PCB, Adalberto,
o Presidente, frequentemente se emocionava. Dizia que devia tudo que era
ao Partido. Muitos velhos comunistas diziam isso.
Fiz o prefácio do seu livro de memórias
intitulado Valeu a pena lutar e posso garantir que este título faz
justiça a um homem cuja dedicação ao povo brasileiro é o retrato de uma época
em que os revolucionários colocavam tudo de lado em nome de seus ideais.
"Colocavam tudo de lado para brigar", conforme costumava dizer Oscar
Niemeyer.
Atuando em Minas Gerais, esses dois alagoanos
foram figuras centrais no apoio do Partido Comunistra Brasileiro à frente
política criada em torno de Tancredo Neves em 1984-85, coligação esta que
conduziu o Brasil a se reencontrar com a Democracia.
Nessa hora tão difícil da vida brasileira, quando a corrupção, a demagogia e os desmandos de todo tipo são a regra, Paulo Elisiário Nunes e Adalberto Timóteo da Silva permanecem como exemplos em minha memória.
*Ivan Alves Filho, historiador

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.