terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Entrada de Flávio Bolsonaro não muda o jogo, por Christopher Garman

Valor Econômico

Com Flávio ou Tarcísio na oposição, ainda é difícil apostar contra a reeleição do presidente

Há cerca de três meses, era consenso entre políticos e comentaristas que o nome escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para disputar a Presidência como candidato da direita seria a variável-chave para prever o resultado das eleições de outubro. Se Bolsonaro escolhesse o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, a oposição caminharia para uma vitória em 2026; caso optasse por alguém de sua família, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seria reeleito de forma razoavelmente tranquila.

O raciocínio se baseava na percepção sobre a competitividade dos candidatos. Tarcísio tem baixa rejeição e um perfil mais moderado e de bom administrador; já os Bolsonaro carregavam os altos índices de rejeição do pai e, supostamente, seriam bem menos competitivos.

Em dezembro último, em uma decisão que inquietou parte da direita, Bolsonaro escolheu seu filho, o senador Flávio Bolsonaro - e o consenso começou a se desfazer. Flávio cresceu nas pesquisas de intenção de voto mais rapidamente do que muitos esperavam (incluindo a Eurasia Group, que projetava uma alta mais tardia), e diversas simulações de segundo turno o colocam em pé de igualdade com Tarcísio contra o presidente Lula.

Evidentemente, não há como testar se o governador teria mais chances que Flávio. Mas, com o senador gozando de índices de rejeição similares aos de Lula, está ficando claro que ele tem chances reais.

A principal conclusão é que a escolha do candidato de oposição talvez não seja a variável mais importante nessa disputa. Três meses atrás, a Eurasia Group considerava Lula um ligeiro favorito, mas com vulnerabilidades que deixariam essa eleição apertada e competitiva. A entrada de Flávio Bolsonaro na disputa não muda esse quadro.

Em primeiro lugar, mesmo com Flávio Bolsonaro na disputa, as vulnerabilidades de Lula estão evidentes. O presidente recuperou sua aprovação, que passou de 41% em junho, na média de todos os institutos, para 48% em outubro - e caiu levemente em seguida, resultado da operação policial que deixou mais de cem mortos no Rio de Janeiro e expôs a falta de credibilidade do presidente em segurança.

Uma nova queda discreta no início deste ano levou essa taxa a uma média de 45%. A controvérsia sobre o desfile de Carnaval que satirizou eleitores evangélicos não ajudou.

As principais preocupações dos eleitores nesta eleição são a segurança pública e a corrupção, dois temas em que Lula tem pouca credibilidade. Também pesa contra o presidente a falta de otimismo com o futuro. Embora a renda real tenha crescido quase 19% nos últimos três anos e o desemprego esteja em 5%, mais da metade (55%) dos ouvidos pela Quaest em sua última pesquisa acham que o país está na direção errada, e 61% acreditam que seu poder de compra caiu no último ano. Qualquer candidato de oposição pode explorar essas vulnerabilidades.

Principais preocupações dos eleitores são a segurança e a corrupção, dois temas em que Lula tem pouca credibilidade

Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem uma rejeição maior que a de Tarcísio e as de outros governadores, como Ratinho Junior, do Paraná. Mas, se mostrar que tem uma boa equipe e um plano para o país que vá além da defesa de seu pai, ele pode convencer os eleitores de que está preparado para assumir a Presidência e reduzir essa rejeição - mesmo tendo passivos que a campanha de Lula poderá explorar.

De todo modo, com Flávio ou Tarcísio na oposição, ainda é difícil apostar contra a reeleição do presidente. A tendência é que a aprovação de Lula volte a subir antes que a campanha comece oficialmente em agosto. A queda do dólar reduz as pressões inflacionárias (o custo de vida é um calcanhar de Aquiles para vários governantes globais), e os eleitores devem começar a sentir, ao longo dos próximos meses, os efeitos de vários programas de cunho populista, como a isenção do Imposto de Renda, o Gás do Povo e a Tarifa Social. As estatísticas também sugerem vantagem para o presidente: historicamente, as aprovações dos governantes sobem em ano eleitoral.

Uma boa aposta é que a aprovação de Lula chegue a 48%-49% entre junho e julho. Governantes com essa taxa de aprovação têm mais de 80% de chances de se reeleger, segundo um banco de dados de eleições globais dos últimos 40 anos coletado pela Ipsos Public Affairs. As vulnerabilidades de Lula descritas acima reduzem essa probabilidade, mas segue difícil apostar com convicção contra sua reeleição.

Tudo isso sugere que, para o resultado das urnas, as escolhas da direita, incluindo o vice de Flávio e o candidato do PSD à Presidência, serão menos relevantes que a aprovação de Lula e a relevância da corrupção e da segurança para os eleitores (que pode crescer em meio às investigações sobre o Banco Master e a novas operações como a do Rio).

Eleições, na maioria das vezes, são determinadas pelo desejo da população por mudança ou continuidade e pelos temas com os quais ela está mais preocupada. A eleição no Brasil em 2026 não será diferente.

 

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