terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Flávio pode não ir ao segundo turno e implodir o bolsonarismo? Por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Parte do eleitorado evangélico pode ser atraída para o candidato do PSD

Flávio Bolsonaro quer demonstrar que seu clã é ainda o principal rosto da direita

A aposta da candidatura de Flávio Bolsonaro é seguir os passos do PT em 2018: chegar ao segundo turno e demonstrar que o clã segue como o principal rosto da direita no país. Mas e se ele falhar já no primeiro turno?

Na semana passada, aumentaram as chances de a direita ter ao menos dois candidatos presidenciais neste ciclo. O PSD escolherá o nome para 2026 entre o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ratinho Jr., do Paraná.

Diante desse cenário, o que o grupo político de Flávio fez para capitalizar o sucesso da caminhada do deputado Nikolas Ferreira, que terminou com um evento público em Brasília? Aparentemente, nada —ao contrário.

Nikolas já declarou apoio a Flávio, mas não o promoveu. Em sua chegada, discursou e concedeu entrevistas descrevendo a marcha como uma ação idealizada por ele, apartidária, voltada a "acordar o país" para a corrupção.

Flávio, por sua vez, continua tensionando a relação com os dois principais interlocutores entre Bolsonaro e o campo evangélico: o pastor Silas Malafaia e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Michelle não declarou apoio ao filho 01, mas rasgou elogios e bênçãos a Nikolas, a quem chamou de "filho 06" do marido. "O povo de bem te ama, te honra e intercede pela sua vida. Você é GIGANTE!", escreveu, apontando-o como liderança legítima.

Silas Malafaia defende que o eleitor de direita escolha livremente entre os vários candidatos no primeiro turno. Paralelamente, Flávio se aproxima de desafetos do pastor, como o influenciador Pablo Marçal. Filipe Sabará, apresentado pela mídia como articulador político da campanha de Flávio, coordenou a campanha de Marçal à Prefeitura de São Paulo em 2024.

Esse contexto levanta duas questões. Primeiro: Flávio conseguirá negociar uma trégua com Malafaia e Michelle ou convencê-los a abraçar sua campanha, tornando-se mais competitivo no primeiro turno? Segundo: qual é o efeito dessa disputa sobre o campo evangélico?

Além de não contar com Michelle e Malafaia, Flávio fará campanha em um campo evangélico desgastado pela exposição negativa provocada por episódios recentes. O Globo noticiou no domingo que o deputado Silas Câmara, acusado de traição pela esposa, aparece associado ao escândalo do INSS. Também recentemente, o pastor Fabiano Zettel foi detido pela Polícia Federal no caso do Banco Master, e o deputado Sóstenes Cavalcante foi flagrado com R$ 470 mil em dinheiro vivo.

Após retornar a Brasília, Nikolas divulgou o conteúdo de um sonho profético relatado por sua irmã. Segundo ela, Deus teria dito que "o problema do Brasil não é Lula, o PT ou a esquerda. O problema é o joio, os que estão entre vocês, os que crescem às suas custas". A mensagem ecoa a frustração com lideranças que passaram a envergonhar parte da igreja.

Em resumo, há um filão relevante do eleitorado evangélico aberto à disputa —e ele pode ser ocupado pelo candidato do PSD. Resta saber se algum deles troca uma eleição relativamente segura ao Senado por uma guerra direta contra o bolsonarismo.

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