Folha de S. Paulo
Parte do eleitorado evangélico pode ser
atraída para o candidato do PSD
Flávio Bolsonaro quer demonstrar que seu clã
é ainda o principal rosto da direita
A aposta da candidatura de Flávio Bolsonaro é
seguir os passos do PT em 2018: chegar ao segundo turno e demonstrar que o clã
segue como o principal rosto da direita no país. Mas e se ele falhar já no
primeiro turno?
Na semana passada, aumentaram as chances de a
direita ter ao menos dois candidatos presidenciais neste ciclo. O PSD escolherá
o nome para 2026 entre o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, Eduardo Leite, do
Rio Grande do Sul, e Ratinho Jr., do Paraná.
Diante desse cenário, o que o grupo político de Flávio fez para capitalizar o sucesso da caminhada do deputado Nikolas Ferreira, que terminou com um evento público em Brasília? Aparentemente, nada —ao contrário.
Nikolas já declarou apoio a Flávio, mas não o
promoveu. Em sua chegada, discursou e
concedeu entrevistas descrevendo a marcha como uma ação idealizada por ele,
apartidária, voltada a "acordar o país" para a corrupção.
Flávio, por sua vez, continua tensionando a
relação com os dois principais interlocutores entre Bolsonaro e o campo
evangélico: o pastor Silas
Malafaia e a ex-primeira-dama Michelle
Bolsonaro.
Michelle não declarou apoio ao filho 01, mas
rasgou elogios
e bênçãos a Nikolas, a quem chamou de "filho 06" do marido.
"O povo de bem te ama, te honra e intercede pela sua vida. Você é
GIGANTE!", escreveu, apontando-o como liderança legítima.
Silas Malafaia defende que o eleitor de
direita escolha
livremente entre os vários candidatos no primeiro turno.
Paralelamente, Flávio se aproxima de desafetos do pastor, como o
influenciador Pablo Marçal. Filipe Sabará, apresentado pela mídia como
articulador político da campanha de Flávio, coordenou a campanha de Marçal à
Prefeitura de São Paulo em 2024.
Esse contexto levanta duas questões.
Primeiro: Flávio conseguirá negociar uma trégua com Malafaia e Michelle ou
convencê-los a abraçar sua campanha, tornando-se mais competitivo no primeiro
turno? Segundo: qual é o efeito dessa disputa sobre o campo evangélico?
Além de não contar com Michelle e Malafaia,
Flávio fará campanha em um campo evangélico desgastado pela exposição negativa
provocada por episódios recentes. O Globo noticiou no domingo que o deputado
Silas Câmara, acusado de traição pela esposa, aparece associado ao escândalo do INSS. Também recentemente, o
pastor Fabiano Zettel foi detido pela Polícia Federal no caso do Banco Master,
e o deputado Sóstenes
Cavalcante foi flagrado com R$ 470 mil em dinheiro vivo.
Após retornar a Brasília, Nikolas divulgou o
conteúdo de um sonho profético relatado por sua irmã. Segundo ela, Deus teria
dito que "o problema do Brasil não é Lula, o PT ou a esquerda. O problema
é o joio, os que estão entre vocês, os que crescem às suas custas". A
mensagem ecoa a frustração com lideranças que passaram a envergonhar parte da
igreja.
Em resumo, há um filão relevante do
eleitorado evangélico aberto à disputa —e ele pode ser ocupado pelo candidato
do PSD. Resta saber se algum deles troca uma eleição relativamente segura ao
Senado por uma guerra direta contra o bolsonarismo.

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