domingo, 1 de fevereiro de 2026

Hora de rever procedimentos. Por Míriam Leitão

O Globo

Assim como fez o Banco Central, as instituições envolvidas deveriam rever procedimentos para verificar se houve falhas

No dia seguinte à decisão do Copom, de manter juros no elevadíssimo nível de 15%, e avisar que a taxa cairá na próxima reunião, o Banco Central estava nas manchetes dos jornais. O assunto, contudo, não era a Selic. Era a auditoria interna feita para averiguar os procedimentos no caso da liquidação do Banco Master. Na mesma quinta-feira, o ministro Dias Toffoli soltou uma nota tentando se explicar e sinalizando que pode devolver o assunto à primeira instância.

No mercado bancário, o Master era um S3. Em palavras: um banco pequeno. Por que então a República está abalada? Há muitas respostas para a pergunta, e uma delas todos sabem: as muitas conexões políticas e jurídicas de Daniel Vorcaro que, se não conseguiram impedir que ele usasse tornozeleira, têm provocado uma sucessão de sustos e dúvidas institucionais.

A nota de Toffoli omite alguns eventos. Não registra, por exemplo, que ele chegou a determinar uma descabida acareação entre diretor do Banco Central e dois investigados, antes ainda de ouvir os suspeitos. A inversão da ordem causou tanta estranheza e provocou tantas críticas, que o ministro relator trocou acareação por depoimento do diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino. Recuou, mas nunca admitiu o recuo. Fez de conta que não havia falado em acareação.

O diretor Ailton de Aquino, aliás, diante da primeira dúvida sobre ele, tomou a iniciativa de colocar à disposição dos investigadores da Polícia Federal seus sigilos fiscal, bancário e telemático. Não se vê a mesma atitude do ministro. A empresa dos irmãos de Toffoli, chamada Maridt, com sede na casa de uma cunhada dele — que desconhece o empreendimento que sedia — deveria divulgar informações sobre seu balanço, de quem recebe e a quem paga.

A notícia de que o Banco Central havia aberto uma auditoria interna, por decisão do presidente da instituição, foi dada primeiro no GLOBO, por Thiago Bronzatto e Fabio Graner. Esta deveria ser uma atitude de todos os órgãos, instituições e empresas envolvidas no episódio: revisar seus atos e decisões. Todos precisam rever procedimentos para saber onde houve falhas. No âmbito do Banco Central, rever a governança, os pareceres, estudar os passos da fiscalização e da supervisão bancária ajudará a evitar que uma situação como esta se repita. Não há qualquer tipo de acusação, a auditoria não foi iniciada por suspeição, mas porque é necessária. É difícil, produz tensão interna, há quem tema que se um pequeno erro for encontrado seja o suficiente para que as defesas queiram a nulidade do processo. Mas a luz do sol sempre foi o melhor remédio contra qualquer dúvida.

O país está num momento de desconfiança em relação às instituições. Por isso, o melhor é ter o máximo de transparência e evitar a tendência ao corporativismo. Criticar o comportamento do ministro Jhonatan de Jesus não é atacar o TCU. Ter dúvidas sobre a conveniência de Dias Toffoli permanecer na relatoria do caso Master não é atacar o Supremo Tribunal Federal. Quem tenta blindá-los presta um desserviço à democracia. Ela precisa da confiança nas instituições.

Tem havido muitos erros e eles precisam ser encarados. Inclusive no setor privado. A Fitch, uma das maiores agências de risco do mundo, deu upgrade ao Master em outubro de 2024. Ele passou a “A-”. Uma nota excelente que indica baixo risco. Naquela altura não era segredo para ninguém a crise de liquidez da instituição, nem se desconhecia a baixa qualidade dos ativos. Em setembro de 2025, a Fitch rebaixou a nota para “BB”, uma nota mediana. E dois meses depois, após a liquidação do banco, rebaixou para “D”. Em um ano saiu do patamar que representa baixo risco, para a nota que indica falência.

O BRB tinha a obrigação de auditar o que estava comprando, realizando uma diligência para verificar se a carteira de fato existia. Evidentemente que a culpa não é do Banco Central. Tudo indica que os ativos foram comprados para fazer transfusão de sangue para o Master. Até março, o BRB tem que entregar seu balanço de 2025 e dizer quanto fará de provisão — o BC mandou R$ 2, 6 bilhões — e como vai resolver o rombo total que, segundo o diretor Ailton Aquino no depoimento, pode chegar a R$ 5 bilhões.

O melhor no intrincado caso Master é o caminho da análise dos procedimentos e condutas nas instituições públicas e no setor privado. Como está fazendo o Banco Central.

 

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