O Globo
Os atendentes levam algum tempo para decifrar
que a menina de 6 anos está presa num carro metralhado, rodeada de parentes
mortos
Quinta-feira é o dia da semana em que novos filmes entram em cartaz. Na semana passada, a sessão das 18h30 na sala 3 do Reserva Cultural, na Avenida Paulista, foi pouco concorrida. Melhor assim, pois permitiu a quem assistiu ao drama documental “A voz de Hind Rajab” permanecer colado na poltrona, mudo e no escuro, antes de sair de cabeça encolhida para não ter de olhar para os outros nem se ver no espelho. Mesmo para quem conhece os detalhes da história real e escreve sobre as investigações do caso, o filme dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania tem a força de um soco. Na cara.
Indicado ao Oscar de Melhor Filme
Internacional, em competição com o brasileiro “O agente secreto”, “A voz de
Hind Rajab” está ancorado em fatos. Tem urgência dilacerante, e, não por acaso,
sua estreia mundial coincide com a data exata da execução de uma menina
palestina por tropas da ocupação israelense em Gaza.
Foi no dia 29 de janeiro de 2024 que
atendentes humanitários do Crescente Vermelho em Ramallah, na Cisjordânia
ocupada, ouviram pela primeira vez a voz miúda de Hind Rajab no telefone de
emergência. O pedido de socorro inicial fora feito por outra voz também não
adulta — de seu primo Layan, de 15 anos. Mas Layan foi morrendo ao longo do
telefonema. Não só ele. O tio, a tia e dois primos menores, com quem Hind
viajava de carro, haviam sido estraçalhados por uma fuzilaria vinda de tanques
israelenses. Quando a menina de 6 anos assume o contato telefônico, repete que
está “sozinha” e com muito medo.
Os atendentes levam algum tempo para decifrar
que Hind está presa dentro de um carro metralhado, rodeada de parentes mortos.
Eles se revezam na tentativa de manter a ligação com a menina enquanto acionam
a desumana burocracia imposta por Israel para o envio de uma ambulância. O
filme é todo construído sob a ótica desses agentes humanitários, que trabalham
em condições impossíveis, e tem como fio condutor a gravação real, em tempo
real, da voz de Hind. A comunicação telefônica com a menina dura a cruel
eternidade de três horas, entremeada de quedas de sinal. Pode ser entendida
como o cordão umbilical de Gaza com o mundo dos vivos. Só que esse mundo
falhou.
(Atenção: spoiler no próximo parágrafo.)
Somente quando o cruel cipoal de normas foi
cumprido, foi autorizado o percurso de uma ambulância que estava a meros oito
minutos de distância de Hind. Em vão. Uma fuzilaria de tiros esmigalhou a
ambulância e matou os dois socorristas a bordo. A menina ainda sussurrou que
ouviu os tiros. Pouco depois, ouve-se nova saraivada de calibre grosso. E silêncio.
O conjunto de corpos na carcaça retorcida
ficou naquela paisagem lunar por 12 dias, até poder ser recolhido.
Inicialmente, Israel ainda tentou sustentar que, naquele dia, hora e local, não
havia qualquer unidade de suas Forças Armadas capaz de atingir o veículo. Numa
segunda tentativa, atribuiu as 335 marcas de bala no carro da menina a uma
troca de tiros entre as Forças de Defesa de Israel (FDI) e militantes
palestinos. A referência a uma investigação mais minuciosa por parte das FDI
tampouco avançou.
Em compensação, levantamento empreendido pelo
grupo interdisciplinar Forensic Architecture, da Universidade de Londres,
reuniu provas em contrário e serve de base a um documentário produzido pela
Fundação Hind Rajab e pela Al Jazeera, que identifica a brigada, o batalhão e
os comandantes suspeitos de responsabilidade no caso. São, segundo o
documentário, 20 os militares israelenses, com nome, sobrenome e patente,
associados ao crime.
— A história de Hind carrega o peso de todo
um povo — diz a atriz Saja Kilani, uma das personagens centrais do concorrente
ao Oscar. — Sua voz é uma entre as dezenas de milhares de crianças mortas em
Gaza nos últimos dois anos.
A semana passada é particularmente apropriada
para falar em números de palestinos mortos por ação direta das FDI. Pela
primeira vez desde o início da operação de terra arrasada contra Gaza, Israel
admitiu aceitar os dados. Seriam, portanto, pelo menos 71,5 mil, sem contar
aqueles cujos corpos continuam soterrados entre as ruínas do que sobrou. Desse
total, segundo dados de julho de 2025, mais de 18.500 são crianças.
Crianças de Gaza cuja voz silenciada, como a
de Hind Rajab, nos condena.

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