domingo, 1 de fevereiro de 2026

A voz do silêncio. Por Dorrit Harazim

O Globo

Os atendentes levam algum tempo para decifrar que a menina de 6 anos está presa num carro metralhado, rodeada de parentes mortos

Quinta-feira é o dia da semana em que novos filmes entram em cartaz. Na semana passada, a sessão das 18h30 na sala 3 do Reserva Cultural, na Avenida Paulista, foi pouco concorrida. Melhor assim, pois permitiu a quem assistiu ao drama documental “A voz de Hind Rajab” permanecer colado na poltrona, mudo e no escuro, antes de sair de cabeça encolhida para não ter de olhar para os outros nem se ver no espelho. Mesmo para quem conhece os detalhes da história real e escreve sobre as investigações do caso, o filme dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania tem a força de um soco. Na cara.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, em competição com o brasileiro “O agente secreto”, “A voz de Hind Rajab” está ancorado em fatos. Tem urgência dilacerante, e, não por acaso, sua estreia mundial coincide com a data exata da execução de uma menina palestina por tropas da ocupação israelense em Gaza.

Foi no dia 29 de janeiro de 2024 que atendentes humanitários do Crescente Vermelho em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, ouviram pela primeira vez a voz miúda de Hind Rajab no telefone de emergência. O pedido de socorro inicial fora feito por outra voz também não adulta — de seu primo Layan, de 15 anos. Mas Layan foi morrendo ao longo do telefonema. Não só ele. O tio, a tia e dois primos menores, com quem Hind viajava de carro, haviam sido estraçalhados por uma fuzilaria vinda de tanques israelenses. Quando a menina de 6 anos assume o contato telefônico, repete que está “sozinha” e com muito medo.

Os atendentes levam algum tempo para decifrar que Hind está presa dentro de um carro metralhado, rodeada de parentes mortos. Eles se revezam na tentativa de manter a ligação com a menina enquanto acionam a desumana burocracia imposta por Israel para o envio de uma ambulância. O filme é todo construído sob a ótica desses agentes humanitários, que trabalham em condições impossíveis, e tem como fio condutor a gravação real, em tempo real, da voz de Hind. A comunicação telefônica com a menina dura a cruel eternidade de três horas, entremeada de quedas de sinal. Pode ser entendida como o cordão umbilical de Gaza com o mundo dos vivos. Só que esse mundo falhou.

(Atenção: spoiler no próximo parágrafo.)

Somente quando o cruel cipoal de normas foi cumprido, foi autorizado o percurso de uma ambulância que estava a meros oito minutos de distância de Hind. Em vão. Uma fuzilaria de tiros esmigalhou a ambulância e matou os dois socorristas a bordo. A menina ainda sussurrou que ouviu os tiros. Pouco depois, ouve-se nova saraivada de calibre grosso. E silêncio.

O conjunto de corpos na carcaça retorcida ficou naquela paisagem lunar por 12 dias, até poder ser recolhido. Inicialmente, Israel ainda tentou sustentar que, naquele dia, hora e local, não havia qualquer unidade de suas Forças Armadas capaz de atingir o veículo. Numa segunda tentativa, atribuiu as 335 marcas de bala no carro da menina a uma troca de tiros entre as Forças de Defesa de Israel (FDI) e militantes palestinos. A referência a uma investigação mais minuciosa por parte das FDI tampouco avançou.

Em compensação, levantamento empreendido pelo grupo interdisciplinar Forensic Architecture, da Universidade de Londres, reuniu provas em contrário e serve de base a um documentário produzido pela Fundação Hind Rajab e pela Al Jazeera, que identifica a brigada, o batalhão e os comandantes suspeitos de responsabilidade no caso. São, segundo o documentário, 20 os militares israelenses, com nome, sobrenome e patente, associados ao crime.

— A história de Hind carrega o peso de todo um povo — diz a atriz Saja Kilani, uma das personagens centrais do concorrente ao Oscar. — Sua voz é uma entre as dezenas de milhares de crianças mortas em Gaza nos últimos dois anos.

A semana passada é particularmente apropriada para falar em números de palestinos mortos por ação direta das FDI. Pela primeira vez desde o início da operação de terra arrasada contra Gaza, Israel admitiu aceitar os dados. Seriam, portanto, pelo menos 71,5 mil, sem contar aqueles cujos corpos continuam soterrados entre as ruínas do que sobrou. Desse total, segundo dados de julho de 2025, mais de 18.500 são crianças.

Crianças de Gaza cuja voz silenciada, como a de Hind Rajab, nos condena.


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