quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Informação e eleições: a questão da credibilidade, por Dulce Baptista

Correio Braziliense

A perspectiva das próximas eleições no Brasil coloca a população votante diante de opções ainda condicionadas pela polarização político-ideológica que se instalou no país e pela influência do mundo virtual sobre o mundo real

Na perspectiva das eleições deste ano e diante da avalanche de notícias e informações que circulam em todas as direções — inclusive com invasão das fake news —, cai por terra a afirmação de que uma imagem vale mais do que mil palavras. Atribuída a Confúcio e muito popularizada no século passado, principalmente nos meios publicitários, a dita afirmação sofre hoje o impacto avassalador das ferramentas de inteligência artificial (IA), que, sob qualquer pretexto, criam situações e flagrantes inverossímeis.

Com os avanços tecnológicos da atualidade, traduzidos, entre outros fatores, na proliferação de redes sociais, aplicativos e memes que são acionados por exércitos infindáveis de algoritmos, torna-se possível a visualização de imagens verdadeiras em tempo real e, da mesma forma, a exibição em escala planetária de situações absolutamente inverídicas. Nesse caso, se a figura que surge em telas e telinhas é convincente do ponto de vista daquilo que é mostrado — a imagem em si —, o contexto dessa imagem é inteiramente enganoso.

Em outras palavras, se eu vejo uma foto — ou um vídeo — do atual presidente dos Estados Unidos tocando violão, posso ter certeza de que a figura retratada não é o próprio, mas uma montagem fabricada por IA, e que aquele violão jamais foi parar nas mãos dele. E o que me dá essa certeza?

Se por um lado são indiscutíveis as inúmeras vantagens da tecnologia da informação, com suas formidáveis aplicações na vida cotidiana das pessoas — as quais converteram a internet e seus desdobramentos no caminho sem volta do modus vivendi contemporâneo —, por outro lado e, de acordo com voz corrente, a internet tornou-se também "terra de ninguém". É justamente por meio da rede mundial que são disseminados todos os tipos de conteúdos, com e sem especificação de fonte e/ou contexto. Daí a necessidade premente de buscar-se segurança jurídica de modo a prevenir a quantidade de problemas graves e variados que surgem a cada dia: de conteúdos impróprios/nocivos a crianças e adolescentes a discursos de ódio, fraudes, calúnias, chantagens etc. Especialistas e autoridades vêm se debruçando sobre o assunto, que, sendo extremamente complexo, repercute em todas as latitudes.

No Brasil, a perspectiva das eleições para presidente da República, governadores e parlamentares coloca a população votante diante de opções ainda condicionadas pela polarização político-ideológica que se instalou no país e pela influência do mundo virtual sobre o mundo real. Nesse cenário, é de se prever que o eleitor será bombardeado por todo tipo de desinformação. Aliás, já está sendo, o que, por sua vez, prejudica o necessário debate sobre as questões que de fato interessam ao país. Da parte do eleitor, o que se coloca então como pressuposto para qualquer que seja o seu voto é saber distinguir o que é real do que é falso e, com isso, prevenir escolhas equivocadas. É preciso estar, mais do que nunca, atento a imagens e textos produzidos por IA. Conforme reportagem do Correio Braziliense de 1º de fevereiro deste ano sobre regras para uso de IA, O avanço da desinformação desafia a segurança nas urnas.

Mídias como Facebook e YouTube, criadas respectivamente em 2004 e 2005, para citar só esses dois exemplos, passaram a dar vez e voz a anônimos em todo o mundo. Com isso, tornou-se exponencial o número de usuários ao redor do planeta, havendo, inclusive, uma certa tendência a se subestimar a mídia profissional em função da superabundância de imagens e textos a serem veiculados por qualquer um e a qualquer momento. O outro lado da moeda é que foi se tornando visível com o tempo o uso indiscriminado desses instrumentos para todas as finalidades — boas e ruins. A par das inegáveis vantagens em termos de conexões entre pessoas, acesso a produtos e serviços, intercâmbio de informações e dados, tornou-se visível também o caráter imediatista e superficial de grande parte dos conteúdos, e isso sem mencionar a deturpação deliberada de fatos e circunstâncias.

Consequentemente, torna-se oportuno lembrar que, a par da discussão sobre regras para uso de IA, faz todo sentido valorizar a mídia profissional, bem como arquivos e bibliotecas. Independentemente de orientação política e linha editorial, jornais e revistas têm, em princípio, compromisso com a veracidade da informação que publicam, e, nesse sentido, identificam elementos como fontes, responsabilidades, datas, locais, entre tantos outros. Já na dupla condição de instituições de memória e sistemas de informação, arquivos e bibliotecas promovem acesso a registros documentais de todos os tipos. A partir da identificação dos elementos citados, também possibilitam pesquisas e aprofundamento em assuntos que, presentes em pautas políticas, funcionam como embasamento para o voto consciente. Em outras palavras, é a credibilidade da informação que está em jogo.

*Dulce Baptista, doutora em ciência da informação pela Universidade de Brasília (UnB), professora aposentada da Faculdade de Ciência da Informação (FCI/UnB)


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