Correio Braziliense
A perspectiva das próximas eleições no Brasil coloca a população votante diante de opções ainda condicionadas pela polarização político-ideológica que se instalou no país e pela influência do mundo virtual sobre o mundo real
Na perspectiva das eleições deste ano e diante da avalanche de notícias e informações que circulam em todas as direções — inclusive com invasão das fake news —, cai por terra a afirmação de que uma imagem vale mais do que mil palavras. Atribuída a Confúcio e muito popularizada no século passado, principalmente nos meios publicitários, a dita afirmação sofre hoje o impacto avassalador das ferramentas de inteligência artificial (IA), que, sob qualquer pretexto, criam situações e flagrantes inverossímeis.
Com os avanços tecnológicos da atualidade,
traduzidos, entre outros fatores, na proliferação de redes sociais, aplicativos
e memes que são acionados por exércitos infindáveis de algoritmos, torna-se
possível a visualização de imagens verdadeiras em tempo real e, da mesma forma,
a exibição em escala planetária de situações absolutamente inverídicas. Nesse
caso, se a figura que surge em telas e telinhas é convincente do ponto de vista
daquilo que é mostrado — a imagem em si —, o contexto dessa imagem é
inteiramente enganoso.
Em outras palavras, se eu vejo uma foto — ou
um vídeo — do atual presidente dos Estados Unidos tocando violão, posso ter
certeza de que a figura retratada não é o próprio, mas uma montagem fabricada
por IA, e que aquele violão jamais foi parar nas mãos dele. E o que me dá essa
certeza?
Se por um lado são indiscutíveis as inúmeras
vantagens da tecnologia da informação, com suas formidáveis aplicações na vida
cotidiana das pessoas — as quais converteram a internet e seus desdobramentos
no caminho sem volta do modus vivendi contemporâneo —, por outro lado e, de
acordo com voz corrente, a internet tornou-se também "terra de
ninguém". É justamente por meio da rede mundial que são disseminados todos
os tipos de conteúdos, com e sem especificação de fonte e/ou contexto. Daí a
necessidade premente de buscar-se segurança jurídica de modo a prevenir a
quantidade de problemas graves e variados que surgem a cada dia: de conteúdos
impróprios/nocivos a crianças e adolescentes a discursos de ódio, fraudes,
calúnias, chantagens etc. Especialistas e autoridades vêm se debruçando sobre o
assunto, que, sendo extremamente complexo, repercute em todas as latitudes.
No Brasil, a perspectiva das eleições para
presidente da República, governadores e parlamentares coloca a população
votante diante de opções ainda condicionadas pela polarização
político-ideológica que se instalou no país e pela influência do mundo virtual
sobre o mundo real. Nesse cenário, é de se prever que o eleitor será
bombardeado por todo tipo de desinformação. Aliás, já está sendo, o que, por
sua vez, prejudica o necessário debate sobre as questões que de fato interessam
ao país. Da parte do eleitor, o que se coloca então como pressuposto para
qualquer que seja o seu voto é saber distinguir o que é real do que é falso e,
com isso, prevenir escolhas equivocadas. É preciso estar, mais do que nunca,
atento a imagens e textos produzidos por IA. Conforme reportagem do Correio
Braziliense de 1º de fevereiro deste ano sobre regras para uso de IA, O avanço
da desinformação desafia a segurança nas urnas.
Mídias como Facebook e YouTube, criadas
respectivamente em 2004 e 2005, para citar só esses dois exemplos, passaram a
dar vez e voz a anônimos em todo o mundo. Com isso, tornou-se exponencial o
número de usuários ao redor do planeta, havendo, inclusive, uma certa tendência
a se subestimar a mídia profissional em função da superabundância de imagens e
textos a serem veiculados por qualquer um e a qualquer momento. O outro lado da
moeda é que foi se tornando visível com o tempo o uso indiscriminado desses
instrumentos para todas as finalidades — boas e ruins. A par das inegáveis
vantagens em termos de conexões entre pessoas, acesso a produtos e serviços,
intercâmbio de informações e dados, tornou-se visível também o caráter
imediatista e superficial de grande parte dos conteúdos, e isso sem mencionar a
deturpação deliberada de fatos e circunstâncias.
Consequentemente, torna-se oportuno lembrar
que, a par da discussão sobre regras para uso de IA, faz todo sentido valorizar
a mídia profissional, bem como arquivos e bibliotecas. Independentemente de
orientação política e linha editorial, jornais e revistas têm, em princípio,
compromisso com a veracidade da informação que publicam, e, nesse sentido,
identificam elementos como fontes, responsabilidades, datas, locais, entre
tantos outros. Já na dupla condição de instituições de memória e sistemas de
informação, arquivos e bibliotecas promovem acesso a registros documentais de
todos os tipos. A partir da identificação dos elementos citados, também
possibilitam pesquisas e aprofundamento em assuntos que, presentes em pautas
políticas, funcionam como embasamento para o voto consciente. Em outras palavras,
é a credibilidade da informação que está em jogo.
*Dulce Baptista, doutora em ciência da
informação pela Universidade de Brasília (UnB), professora aposentada da
Faculdade de Ciência da Informação (FCI/UnB)

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