O Globo
É mais fácil e cômodo repetir palavras de
ordem curtas e simples, revestidas de uma indignação hipócrita
O pensador grego Aristóteles, um dos
fundadores da filosofia ocidental, que viveu há cerca de 2.500 anos, ensinava
que a arte da política consistia na busca do bem comum, pautado por justiça e
equidade, por meio de um debate racional, travado franca e abertamente. Esse
ideal, que corresponde à própria essência da democracia, embora jamais tenha se
concretizado em toda a sua plenitude, sempre pautou a ação daqueles que,
filiados a tal tradição, atuaram na arena pública.
Lamentavelmente, de uns tempos para cá, ressurge entre nós, na contramão desse respeitável legado, uma prática nefasta, que julgávamos definitivamente sepultada no passado, que atende pelo nome de “lacerdismo”. Cuida-se de um estilo peculiar de ação política que privilegia uma retórica agressiva e inflamada, pautada num moralismo refalsado, cujo objetivo único é deslegitimar os adversários, destruindo suas reputações.
O lacerdismo tem origem na figura de Carlos
Lacerda, político e jornalista que liderava a oposição aos governos
trabalhistas nos anos 1950 e 1960. Atuava basicamente por meio de um constante
e feroz denuncismo, artificialmente construído, que dispensava qualquer
proposta para o país, limitando-se a apontar, com o cinismo e a desfaçatez que
lhe eram próprios, supostos atos de corrupção, subversão ou outros desvios de
conduta de opositores reais ou imaginários.
Essa prática renasce atualmente, de forma
difusa e transversal, sem respeitar diferenças partidárias ou ideológicas,
manifestando-se tanto à direita como à esquerda do espectro político.
Expressa-se geralmente sob a forma de uma cruzada puritana farisaica, em que os
adversários são tratados como inimigos, destinados a proscrição, cadeia ou
eliminação física.
A disputa não se trava mais entre projetos ou
programas de governo, mas passa por um permanente embate de narrativas morais
concorrentes, que, não raro, encontra expressão em comissões parlamentares de
inquérito, as quais se arvoram em investigar temas cuja apuração, em geral, já
vem sendo realizada por parte dos órgãos constitucionalmente competentes.
De fato, é mais simples denunciar do que
propor soluções consistentes. Apresentar propostas estruturadas e coerentes
para o país exige esforço intelectual, disposição para o debate e abertura ao
compromisso, atributos hoje escassos entre aqueles que atuam nas lides da
política.
Não é à toa que o lacerdismo inspirou a
atuação da famosa “banda de música”, integrada por parlamentares da extinta
União Democrática Nacional (UDN) que fustigaram os governos nacionalistas e
populistas entre os anos 1946 e 1964, com discursos afinados e slogans
mordazes, levando o presidente Getúlio Vargas ao suicídio, acusado de chafurdar
num “mar de lama”.
É mais fácil e cômodo repetir palavras de
ordem curtas e simples, revestidas de uma indignação hipócrita, porém
contundente, preferencialmente através de mídias digitais, perpetuando a
polarização e o confronto, do que propor soluções que permitam o desenvolvimento
social, cultural e econômico da sociedade.
O lacerdismo hoje redivivo, que atinge tanto
os que atuam na vida pública como aqueles que se encontram fora dela,
corresponde à antipolítica, por empobrecer o debate democrático, fomentar a
descrença nas instituições e estimular a equivocada convicção segundo a qual
apenas soluções extravagantes — judiciais, tecnocráticas ou autoritárias — são
capazes de resolver os problemas nacionais, cuja origem, aliás, remonta à
própria colonização do Brasil.

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