Folha de S. Paulo
Cada vez mais se adota o recolhimento
involuntário de dependentes; mas será que funciona?
Uma terapia que comece na rua, caso a caso e
sem tempo para terminar, pode dar mais resultados
Leio no Globo que 30% das capitais brasileiras estão adotando o recolhimento involuntário de dependentes químicos em situação de rua. A justificativa é que se trata de pessoas que põem em risco a própria vida ou a de terceiros. Não se trata de uma medida voluntarista dessas cidades. O Conselho Federal de Medicina já permite que parentes, responsáveis ou servidores públicos de saúde solicitem essa internação, sendo que a restrição da liberdade deve ser "pelo menor tempo possível".
Resta saber se funciona. Nenhum dos médicos e
terapeutas que conheço, profissionais em dependência e com vasta experiência no
assunto, acredita nessa solução. Ressalvados os casos em que a internação
é uma emergência, o tratamento mais eficaz consiste em fazer o
dependente se dispor a cumprir as etapas que o levarão a convencer-se de que
sua vida será melhor sem a droga.
A própria síndrome de abstinência, pela qual ele inevitavelmente passará, faz
parte do tratamento. Nenhuma pessoa levada à força se sujeitará a isso.
A internação "pelo menor tempo
possível" também é amadora e irreal. O processo pode levar semanas ou meses,
daí as internações não terem tempo para terminar. Depende de cada um. E de que
são formadas essas instituições que recolhem gente à força na rua? Por
especialistas em dependência ou simples clínicos para quem o importante é a
"desintoxicação"?
Por que o dependente não quer sair da rua?
Porque não tem ideia de para onde irá e porque sabe que, na rua, terá acesso à
substância de que precisa. Daí ser na rua, na minha opinião, que ele deveria
começar a ser tratado. Terapeutas que frequentem as cracolândias e
ganhem a confiança de alguns usuários terão mais possibilidades de convencê-los
a se internarem. É possível que, se esclarecidos, os mais conscientes de sua
condição aceitem.
Por menor o aproveitamento, será superior ao
conseguido com pessoas levadas se debatendo, aterrorizadas pela perspectiva de
passar as próximas horas sem o que elas pensam ser o que ainda as liga à vida.

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