segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Xingar uma pessoa negra de macaco desumaniza e nega direitos humanos, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Racismo científico apregoou existência de uma hierarquia racial na qual pretos e pardos encontram-se em condição de inferioridade

Isso explica o fato de o talentoso jogador de futebol Vini Júnior ter sofrido 20 ataques racistas em sua atuação pelo Real Madrid nos últimos oito anos

Macaco. A designação comum aos primatas, excetuando os seres humanos, é uma das manifestações mais explícitas e agressivas de racismo. Chamar, ou melhor, xingar uma pessoa negra usando essa expressão é uma forma de desumanização, animalização, inferiorização e negação de direitos humanos.

A origem da associação criminosa (racismo é crime, vale lembrar) de pessoas negras a símios (macacos, gorilas, chimpanzés…) segue a lógica da teoria (furada) do racismo científico, que apregoou existência de uma hierarquia racial na qual pretos e pardos encontram-se em condição de inferioridade.

É isso o que explica o fato de um jogador profissional de alto rendimento e extremo talento como é o Vini Júnior ter sofrido 20 ataques racistas durante sua atuação em campo pelo Real Madrid nos últimos oito anos. O mais recente episódio ocorreu numa partida contra o Benfica, em Portugal, na semana passada. A Uefa, organismo máximo do futebol europeu, abriu investigação para apurar o caso.

Recentemente A Fifa elaborou um protocolo antirracismo (que abrange manifestações da torcida, gestos discriminatórios de jogadores, integrantes de comissões técnicas e funcionários de clubes) para responder às ofensas raciais cada vez mais frequentes nos estádios.

Para além dos campos de futebol, creio que todo mundo lembre da postagem racista do presidente dos EUA em sua rede social associando, com o auxílio da IA, os rostos do ex-presidente Barack Obama (único negro a chegar ao comando da Casa Branca) e de sua esposa, Michelle, a corpos de macacos.

Por estas bandas, xingar de "macaco" ou fazer gestos que remetem ao comportamento deste animal configura injúria racial (Lei 14.532/2023), crime equiparado ao racismo, com pena de reclusão de 2 a 5 anos. Neste ano, uma turista argentina foi presa preventivamente após ofender funcionários de um bar da zona sul do Rio de Janeiro, chamando os trabalhadores de mono (macaco em espanhol). A prisão foi revogada e o processo corre em sigilo. A conferir.

 

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