Por Iago Mac Cord / Correio Braziliense
No aniversário de 46 anos do Partido dos
Trabalhadores, em Salvador, o presidente deu início ao discurso pela disputa do
quarto mandato no Palácio do Planalto e criticou a mercantilização da política
brasileira: "Apodreceu"
No encerramento das comemorações do
aniversário de 46 anos do Partido dos Trabalhadores (PT), ontem, em Salvador, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou o discurso para dar o pontapé
inicial em sua jornada pela reeleição. Em uma fala incisiva no Trapiche Barnabé,
Lula afirmou que a política brasileira "apodreceu" e está
excessivamente "mercantilizada", criticando o alto custo eleitoral e
o "mercado" de cabos eleitorais e candidaturas.
O evento serviu para mobilizar a militância e alinhar as diretrizes do partido, que incluem o combate ao fascismo, a defesa do legado econômico e a adoção de bandeiras como o fim da escala de trabalho 6x1 e a regulação do trabalho por aplicativo. Lula contrastou a situação atual com o início da trajetória do PT, mencionando ter saudade de quando as candidaturas eram financiadas pela venda de camisetas, enquanto hoje há "dinheiro rolando para tudo quanto é lado".
"Os nossos deputados são testemunhas de
que a política apodreceu. A política apodreceu. Vocês que são candidatos sabem
como é que está o mercado eleitoral neste país. Vocês sabem quanto custa um
cabo eleitoral. Vocês sabem quanto custa o vereador. Vocês sabem quanto custa o
preço de cada candidatura neste país. O que é uma vergonha", afirmou o
presidente.
Para enfrentar a direita em 2026, o
presidente convocou aliados do Partido Social Democrático (PSD), do Partido
Comunista do Brasil (PCdoB) e do Partido Democrático Trabalhista (PDT),
indicando a intenção de ampliar ainda mais a base governista para garantir a
governabilidade e a vitória no que chamou de "guerra política" contra
a mentira e o fascismo.
O PT pretende reafirmar sua origem
"antissistema", se posicionando contra as elites que capturam o
Estado, e não contra as instituições democráticas. "E essa campanha agora,
se preparem, porque vocês, os nossos aliados, PSB, PCdoB, PDT e quem mais a
gente conseguir trazer, sabe, quem mais a gente conseguir trazer",
reforçou o chefe do Executivo.
"Nós fomos, na nossa origem, o partido
que enfrentou o sistema. E o sistema não são as instituições democráticas, como
um pedaço da extrema direita aponta. O sistema são aqueles que querem sempre
tomar um pedaço do Estado para si, que não permitem que os mais pobres
prosperem", disse o marqueteiro Otávio Antunes, em discurso a dirigentes e
militantes petistas em Salvador na quinta-feira.
Em seu discurso, Lula e líderes do partido
também apresentaram uma série de dados para sustentar a narrativa de sucesso
econômico e social. Destacaram o aumento do salário mínimo, que chegou a R$
1.620 — valor que, segundo o presidente, seria apenas R$ 800 sem a política de
valorização baseada no Produto Interno Bruto (PIB) —, e exaltaram a maior
população economicamente ativa da história, com quase 104 milhões de pessoas.
Além disso, lembraram que a bolsa de valores
atingiu o patamar de 185 mil pontos, uma marca histórica, as exportações
atingiram um recorde de US$ 349 bilhões, com abertura de 516 novos mercados em
três anos. Na saúde, ressaltaram a realização de 14,7 milhões de operações
eletivas pelo programa "Agora Tem Especialista".
Por fim, em relação aos investimentos,
enalteceram o Novo Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), que já investiu
mais de R$ 944 bilhões em três anos, além do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) ter contratado R$ 588 bilhões para 406 mil projetos
e a transformação ecológica ter mobilizado R$ 400 bilhões.
Resolução do PT
Além do evento na Bahia, o diretório nacional
do PT também aprovou uma nova resolução, que, segundo a legenda,
"reafirma, diante do Brasil, por que existimos e para onde vamos". A
resolução política aprovada define o Partido dos Trabalhadores como um partido
"democrático, popular e socialista" e estabelece metas claras para o
ciclo eleitoral.
O documento foca em: Justiça Tributária,
visando a defesa da reforma do Imposto de Renda, que ampliou a isenção para que
ganha até dois salários mínimos e foca em tributar "bancos, bets e
bilionários"; direitos trabalhistas, com foco na implementação do fim da
escala de trabalho 6x1 sem redução salarial e a proteção social para
trabalhadores de aplicativos.
Paralelamente, no âmbito da mobilidade e
educação, o texto defende a expansão da Tarifa Zero no transporte público e a
universalização das creches para aliviar o orçamento das mães trabalhadoras —
que gastam até um terço da renda com cuidadores. O texto destaca, ainda, o
enfrentamento à violência contra as mulheres, com o lançamento do Pacto
Nacional de Prevenção ao Feminicídio como "profissão de fé" do
governo.
Críticas à política externa de Trump
Lula utilizou o evento para criticar
duramente a política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Seu discurso focou na soberania nacional e na rejeição à interferência dos EUA
nos assuntos internos da Venezuela e de Cuba, além de expor uma "briga
escondida" liderada por Washington (capital estadunidense) para isolar a
China no mercado de minerais críticos.
Lula afirmou "em alto e bom som"
que os problemas da Venezuela devem ser resolvidos pelo seu próprio povo, e não
pelo país norte-americano ou por Trump. Essa declaração ocorre em um contexto
de tensão extrema: com o então líder venezuelano Nicolás Maduro e sua mulher,
Cília Flores, presos em Nova York e os EUA apoiando a vice Delcy Rodriguez,
apesar do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ter ameaçado que ela pode
ter o mesmo destino de Maduro se não colaborar.
Lula também defendeu que o PT encontre formas
de ajudar Cuba, classificando a situação da ilha como vítima de um "massacre
de especulação" dos EUA. Isso porque Trump assinou, no fim de janeiro, uma
ordem executiva ameaçando taxas adicionais a países que forneçam petróleo para
Cuba.
Tal decisão do presidente dos Estados Unidos,
inclusive, pressionou suficientemente o México, que suspendeu o envio de
insumos à ilha. O PT já havia emitido nota no fim de janeiro acusando o líder
norte-americano de tentar sufocar a economia cubana após "invadir a
Venezuela".
"Nosso país é solidário ao povo cubano,
que é vítima de um massacre de especulação dos Estados Unidos contra eles e nós
temos que encontrar, enquanto partido, um jeito de ajudar. Temos de dizer, em
alto e bom som, que o problema da Venezuela tem que ser resolvido pelo povo da
Venezuela e não pelos Estados Unidos ou pelo Trump", defendeu Lula.
O presidente revelou ainda que, em suas
reuniões diplomáticas, percebe um movimento liderado pelos EUA para impedir que
o Brasil e outros países vendam terras raras e minerais críticos para a China.
Contrariando a pressão de Donald, Lula agradeceu ao embaixador chinês, Zhu
Qingqiao, pela parceria "respeitosa e exitosa".
"E agora, embaixador, toda conversa,
toda reunião, é para evitar que vendam terras raras e minerais críticos para a
China. É uma briga meio escondida, mas tudo é contra a China", disse Lula
para Qingqiao.
O vice-presidente do país norte-americano, JD Vance, revelou planos para um bloco comercial preferencial de minerais para diminuir o controle chinês, mas o governo brasileiro indicou que não tomará decisões céleres sobre participar dessa iniciativa.

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