O Estado de S. Paulo
Potências médias, como Canadá e Brasil, terão de encontrar caminhos neste mundo novo com prioridade por uma economia doméstica de maior resiliência e produtividade
A edição mais recente da revista Foreign
Affairs traz um importante artigo de um brasileiro, Matias Spektor, que merece
ser lido com atenção. Seu título e subtítulo falam por si: The World Will Come
to Miss Western Hypocrisy: An Overtly Transactional Order Spells Trouble for
Everyone. O tema é especialmente relevante para o Brasil.
Na primeira metade do século passado, três obras de ficção imperdíveis procuraram vislumbrar o futuro décadas à frente e mostraram-se premonitórias sobre o desenvolvimento tecnológico e suas consequências políticas e sociais. A peça teatral R.U.R, Rossum’s Universal Robots (1920), de Karel Capek, na qual certamente Aldous Huxley se inspirou para escrever seu Admirável Mundo Novo (1932); e 1984, de George Orwell (1949). São clássicos que guardam enorme interesse em tempos de inteligência artificial, robotização e conglomerados privados gigantes que conhecem o que compramos e compartilhamos. Além de governos que se propõem a controlar o que é postado por seus cidadãos, nos quais aplicam técnicas de reconhecimento facial antecipadas pelo Big Brother de Orwell.
Na distopia orwelliana, o Ministério da Paz
era responsável pela guerra; ao Ministério do Amor cabia manter a lei e a
ordem. O Ministério da Pujança era responsável por questões econômicas e o
Ministério da Verdade era responsável por notícias, entretenimento, educação e
belas artes. Seus nomes em novilíngua eram, respectivamente, MiniPaz, MiniAmor,
MiniPuja e MiniVer. O personagem central do livro trabalhava no MiniVer, cujo
lema, escavado na parede, era “ignorância é força”.
Em carta enviada a Orwell em outubro de 1949,
em que agradecia o envio de seu 1984,
Huxley reputou o livro “profundamente
importante”, mas observa sobre o futuro que, em vez de uma bota oprimindo um
rosto humano, as oligarquias dominantes encontrariam meios mais eficientes de
satisfazer impulsos por poder, meios dos quais tratou em seus escritos. Em seu
Admirável Mundo Novo Revisitado
(1958), fez um fundamental exame do problema
da liberdade numa era de técnicas avançadas de propaganda, já então à
disposição de autocratas para manipular e controlar a população por meio da
alteração de seus padrões de pensamento e comportamento. Antecipava em algumas
décadas Os Engenheiros do Caos, o importante livro de Giuliano Da Empoli.
O governo Trump publicou sua relevante
National Security Strategy em novembro de 2025 e, no mês passado, um importante
documento que define sua Estratégia Nacional de Defesa e tem como subtítulo
“Restaurando a paz por meio da força”. O texto afirma que os EUA haviam
desperdiçado sua vantagem militar ao se apegar a “abstrações do tipo castelo
nas nuvens”, como a “ordem internacional baseada em regras”. O documento deixa
claro que os EUA “must and will” conferir prioridade à defesa de sua homeland e
do “Corolário Trump” às doutrinas Monroe (a América para os americanos) e
Theodore Roosevelt ( Talk softly and carry a big stick). A Donroe Doctrine
seria algo como talk loudly and carry a bigger stick. As principais “linhas de
esforço” seriam a defesa da terra natal – e da presença hegemônica no
hemisfério ocidental – e a contenção da China. Em seguida, vêm o aumento do
burden-sharing com aliados e parceiros e a supercharging da “base industrial de
defesa” dos EUA. O documento reitera o direito dos EUA de acessar
“áreas-chave”, como o Canal do Panamá e a Groenlândia.
Os europeus têm razão em estar preocupados. O
documento afirma que os parceiros da Organização do Tratado do Atlântico Norte
(Otan) têm capacidade econômica que ultrapassa em muito a da Rússia e cobra o
acordado: 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em dispêndio militar e mais 1,5%
em gastos ligados à segurança. Os aliados da Otan deveriam assumir a principal
responsabilidade pela defesa da Europa – com o apoio crítico, “porém mais
limitado, dos EUA”. Na visão dos Departamentos de Estado e da Guerra, “o
presidente Trump está liderando o país para uma nova idade do ouro com a sua
visão de paz duradoura por meio da força”.
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney,
fez importante contraponto em seu discurso em Davos. Referiu-se a uma nova e
dura realidade geopolítica em que grandes potências não estão mais submetidas a
restrições que, bem ou mal, existiram nas décadas do pós-guerra. Foi realista
ao afirmar que sabíamos que a “international rules-based order” era
parcialmente falsa, que os mais fortes se eximiriam dessas regras quando isso
lhes fosse conveniente e que as regras seriam aplicadas de maneira assimétrica.
Ficção que, segundo Carney, era útil: a hegemonia americana, em particular,
ajudou a prover bens públicos, linhas marítimas abertas, um sistema financeiro
relativamente estável, segurança coletiva e apoio a sistemas de resolução de
controvérsias.
Essa “ordem” acabou e não voltará. Nostalgia
não é estratégia política. Potências médias, como Canadá e Brasil, terão de
encontrar caminhos neste mundo novo, caminhos que passam por geometrias
variáveis na área externa e pela busca, agora premente e com prioridade, por uma
economia doméstica de maior resiliência e produtividade.

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