segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Milagres, fraudes e riquezas que viram pó. Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Seguir o dinheiro é o caminho para identificar as conexões políticas e a extensão das práticas fraudulentas no mercado

No final dos anos 1960 e início da década de 1970, o mercado acionário brasileiro viveu um dos seus períodos de maior valorização. Em pleno milagre econômico da ditadura militar, o índice da bolsa do Rio de Janeiro, então a maior do país, passou de 110,1 pontos, em fevereiro de 1967, para 5.236,3 pontos em junho de 1971.

Os dados vêm do livro “Crises Financeiras: Brasil e mundo (1929-2023)”, de Roberto Teixeira da Costa, observador privilegiado da história do sistema financeiro brasileiro. Naquela época, ele era gestor do Crescinco, maior fundo de investimentos da América Latina. Costa mostra como a intensa escalada de preço das ações, de um lado, e a qualidade dos dados financeiros das empresas e os mecanismos de controle do mercado frágeis, de outro, indicavam que o colapso era previsível.

Outro contemporâneo que compilou histórias daqueles tempos loucos é Ney Carvalho. Em “Três Episódios Marcantes das Bolsas do Brasil”, o gestor de uma das principais corretoras de então conta um causo ilustrativo de como a falta de informações confiáveis e a fiscalização deficiente favoreciam a especulação e os aproveitadores.

Segundo Ney Carvalho, o oba-oba na bolsa do Rio era tão grande que alimentava a expectativa de lucro fácil no curtíssimo prazo. A mera perspectiva de estreia de um papel despertava uma corrida para as compras, dada a valorização astronômica naqueles anos.

Conta Carvalho que certo dia um operador apareceu no pregão oferecendo a venda de um lote de ações de uma nova empresa, de nome Merposa. A novidade logo gerou interesse e o mercado comprou todo o estoque de papéis ofertado. Fechado o mercado, o corretor revelou a pegadinha. Não havia empresa nenhuma registrada na bolsa com aquela denominação. Merposa, na verdade, era uma sigla para Merda em Pó S/A - e o episódio serve para ilustrar bem como todo aquele boom tinha pouco substrato na realidade.

Algo muito mais grave aconteceu na bolsa de São Paulo. Conta Roberto Teixeira da Costa que, no final dos anos 1960, o químico Nagib Audi, fundador de uma fábrica de diluentes para limpeza pesada, criou um conglomerado financeiro envolvendo banco, corretora, financeira, distribuidora de valores e uma rede distribuidora de derivados de petróleo e de bens de consumo com lojas espalhadas por todo o Brasil.

O grupo Audi tinha ações negociadas na Bovespa. Aproveitando-se de brechas na legislação e informações opacas sobre o desempenho financeiro das empresas integrantes do grupo, Audi levou adiante um esquema de sustentação artificial do preço das suas ações. A manipulação atraiu milhares de investidores, a ponto de o grupo Audi figurar entre os papéis mais transacionados na bolsa. Enquanto isso, o empresário ampliava seu contato com o governo em busca de incentivos fiscais e exibia gostos exóticos, como a maior criação de cavalos árabes puro sangue. A fraude só foi descoberta quando integrantes do próprio mercado exigiram do Banco Central a publicação dos balanços das empresas e um prejuízo vultoso foi revelado.

O estouro da bolha nas bolsas em 1971 gerou uma perda de credibilidade que levou décadas para ser recuperada no mercado de capitais brasileiro. Para tanto, foram fundamentais a aprovação da Lei das Sociedades Anônimas e a criação da Comissão de Valores Mobiliários, da qual Roberto Teixeira da Costa foi o primeiro presidente.

No ano do cinquentenário das duas instituições, o escândalo do Banco Master e da Reag coloca novamente em xeque a confiança no mercado.

Corrigindo uma injustiça da minha coluna de 19/01, a repórter Amanda Rossi, do Uol, foi a primeira a demonstrar, com farta documentação, como dezenas de fundos da Reag investiam em duas empresas ligadas ao pai de Daniel Vorcaro que diziam possuir dezenas de bilhões de reais em créditos de carbono. Era tudo merda em pó.

Desde então, a cada dia temos lido novas reportagens nos principais veículos da imprensa revelando como títulos podres, imóveis com preços artificialmente inflados, recebíveis de empresas de fachada e ações de empresas em vias de quebrar, entre outras mutretas, alimentavam os fundos e negócios do grupo de Vorcaro. Isso abre duas frentes de investigações que expõem o potencial de estrago do caso Master.

Numa direção, o mergulho nos negócios de cada fundo ligado ao banco pode expor as suas conexões com o mundo político. Outra matéria de Rossi (com Natália Portinari) identificou que uma das empresas de Vorcaro investiu R$ 67,5 milhões num projeto eólico do ex-ministro de Bolsonaro Fábio Faria. Outras tenebrosas transações com políticos são esperadas, basta seguir o dinheiro.

Mas há também o temor de que as práticas fraudulentas não sejam casos isolados. A se confirmar a frouxidão da fiscalização da CVM nos fundos, quem garante que outros bancos e gestoras de recursos não tenham seus balanços artificialmente inflados?

A exuberância do mercado de capitais brasileiro, para ser sustentável, exige delimitar claramente se o Master e a Reag eram tumores que foram extirpados ou apenas os primeiros focos de uma metástase.

 

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