terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Minha vida mudou, por Pedro Doria

O Globo

OpenClaw, o agente autônomo que atua em seu nome resolvendo coisas internet afora, não é ferramenta para qualquer um

Nas últimas duas semanas, minha relação com a inteligência artificial mudou radicalmente. Nesse compasso, mudou também minha relação com computadores, celulares e todos os outros instrumentos que fazem parte de nossa vida digital. Essa transformação, que a princípio me parece mais positiva que negativa, se deu por duas razões. Ou se dá — afinal, está em curso. Primeiro, é uma lenta migração do ChatGPT para o Claude, da Anthropic, que vem se tornando a IA que uso com mais frequência. Segundo, e simultaneamente, instalei o OpenClaw num computador extra.

OpenClaw, o agente autônomo que atua em seu nome resolvendo coisas internet afora, não é ferramenta para qualquer um. É inseguro e complexo. Me tomou um sábado e um domingo botar para funcionar minimamente. Na verdade, se acompanhar IA não fosse trabalho, possivelmente esperaria um produto mais bem acabado aparecer. A instalação, porém, serviu para aprender muito sobre o momento da tecnologia.

Sou um usuário de tecnologia razoavelmente pesado, mas não tenho cabeça de ciências exatas. Naquela divisão iluminista das pessoas, calhei de cair com os dois pés muito firmes demais na área das humanidades. Mas tecnologia me fascina, morei por dois períodos no Vale do Silício, e isso se aprofundou. Aprendi a usar computadores em terminais Unix quando o Muro de Berlim ainda estava de pé, programei um quê. Em Basic, depois Pascal. Se o leitor não sabe do que se trata, relaxa. São linguagens velhas, e boa parte dos programadores atuais tampouco sabem. Além do quê, como programador eu era bastante medíocre. Nunca passei de estruturas muito elementares.

Mas, justamente porque escrevo sobre tecnologia na imprensa há mais de 30 anos, houve momentos em que tive de voltar ao Unix, aos servidores. Sempre é maçante, atrapalhado. Quando blogs começaram, era preciso ter algumas manhas técnicas para instalar. Mexer em código. As coisas muito novas nem sempre vêm já preparadas para quem quer clicar e instalar. O OpenClaw é assim. Além disso, é uma ferramenta perigosa. Uma IA com acesso a tudo no computador, pensando por conta própria. Por isso é importante instalar numa máquina zerada, sem acesso a e-mail, fotografias, contas de banco.

O OpenClaw depende de skills. Quer que ele invista por você, acompanhando o mercado de criptomoedas de cinco em cinco minutos? Eu quis — pus R$ 200 numa corretora para ver no que dá. Só que, para isso, é preciso um programinha que o permita entender como fazer. É o skill. Há alguns para baixar. Foram escritos por gente pela internet. Talvez pessoas bem-intencionadas, mas como garantir que não há um cavalo de Troia disposto a mexer em coisas suas?

O jeito seguro é desenvolver você mesmo um skill. Pois aí entra o Claude. Ele programa. Basta escrever, em linguagem natural, o que deseja. Claude escreve o código. Daí vem o estalo. O OpenClaw pode organizar meu banco de dados, alguns anos de artigos, trechos de livro e podcasts, vídeos, não devidamente indexados. Fiz uma cópia de tudo, pus lá. Ensinei o que queria, criando um skill. Não que eu programe em JavaScript ou Python, as linguagens de preferência do agente. Mas a IA programa. Deu certo, só que mais ou menos. Perguntei ao agente por que estava tão lento para resolver algumas coisas. Pois ele pensou um tanto e me respondeu. O código estava inadequado. Aí perguntou se eu desejava que ele resolvesse. O próprio assistente reescreveu o código, reduzindo a necessidade de uso de IA e tornando tudo bem mais ágil.

É claro que essa tecnologia não está pronta. Mas o que descobri, nestas últimas duas semanas, é que, com o que temos já hoje, posso escrever software como se fosse um programador bem experiente. E não é difícil. Só que vai além. O mundo está por um fio de ter agentes realmente autônomos. Programas de computador que resolvem o que você desejar na internet. Que escrevem, por si sós, os sistemas necessários para executar exatamente a tarefa que você pedir. Do seu jeito.

Isso já existe — tenho um instalado na minha casa. E sou um jornalista que não escreve código desde o século passado. Um camarada de humanas. Sim, hoje isso ainda é uma aventura. Não daria acesso ao meu computador. No máximo a R$ 200, como experiência. (Não parece, ainda, lá muito bom como investidor.)

Mas o mundo digital mudou de patamar. E isso, fatalmente, transformará o mundo físico.

 

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