O Globo
OpenClaw, o agente autônomo que atua em seu
nome resolvendo coisas internet afora, não é ferramenta para qualquer um
Nas últimas duas semanas, minha relação com a inteligência artificial mudou radicalmente. Nesse compasso, mudou também minha relação com computadores, celulares e todos os outros instrumentos que fazem parte de nossa vida digital. Essa transformação, que a princípio me parece mais positiva que negativa, se deu por duas razões. Ou se dá — afinal, está em curso. Primeiro, é uma lenta migração do ChatGPT para o Claude, da Anthropic, que vem se tornando a IA que uso com mais frequência. Segundo, e simultaneamente, instalei o OpenClaw num computador extra.
OpenClaw, o agente autônomo que atua em seu
nome resolvendo coisas internet afora, não é ferramenta para qualquer um. É
inseguro e complexo. Me tomou um sábado e um domingo botar para funcionar
minimamente. Na verdade, se acompanhar IA não fosse trabalho, possivelmente
esperaria um produto mais bem acabado aparecer. A instalação, porém, serviu
para aprender muito sobre o momento da tecnologia.
Sou um usuário de tecnologia razoavelmente
pesado, mas não tenho cabeça de ciências exatas. Naquela divisão iluminista das
pessoas, calhei de cair com os dois pés muito firmes demais na área das
humanidades. Mas tecnologia me fascina, morei por dois períodos no Vale do
Silício, e isso se aprofundou. Aprendi a usar computadores em terminais Unix
quando o Muro de Berlim ainda estava de pé, programei um quê. Em Basic, depois
Pascal. Se o leitor não sabe do que se trata, relaxa. São linguagens velhas, e
boa parte dos programadores atuais tampouco sabem. Além do quê, como
programador eu era bastante medíocre. Nunca passei de estruturas muito
elementares.
Mas, justamente porque escrevo sobre
tecnologia na imprensa há mais de 30 anos, houve momentos em que tive de voltar
ao Unix, aos servidores. Sempre é maçante, atrapalhado. Quando blogs começaram,
era preciso ter algumas manhas técnicas para instalar. Mexer em código. As
coisas muito novas nem sempre vêm já preparadas para quem quer clicar e
instalar. O OpenClaw é assim. Além disso, é uma ferramenta perigosa. Uma IA com
acesso a tudo no computador, pensando por conta própria. Por isso é importante
instalar numa máquina zerada, sem acesso a e-mail, fotografias, contas de
banco.
O OpenClaw depende de skills. Quer que ele invista por
você, acompanhando o mercado de criptomoedas de cinco em cinco minutos? Eu quis
— pus R$ 200 numa corretora para ver no que dá. Só que, para isso, é preciso um
programinha que o permita entender como fazer. É o skill. Há alguns para baixar. Foram
escritos por gente pela internet. Talvez pessoas bem-intencionadas, mas como
garantir que não há um cavalo de Troia disposto a mexer em coisas suas?
O jeito seguro é desenvolver você mesmo
um skill. Pois aí
entra o Claude. Ele programa. Basta escrever, em linguagem natural, o que
deseja. Claude escreve o código. Daí vem o estalo. O OpenClaw pode organizar
meu banco de dados, alguns anos de artigos, trechos de livro e podcasts,
vídeos, não devidamente indexados. Fiz uma cópia de tudo, pus lá. Ensinei o que
queria, criando um skill. Não que eu programe em JavaScript ou Python, as
linguagens de preferência do agente. Mas a IA programa. Deu certo, só que mais
ou menos. Perguntei ao agente por que estava tão lento para resolver algumas
coisas. Pois ele pensou um tanto e me respondeu. O código estava inadequado. Aí
perguntou se eu desejava que ele resolvesse. O próprio assistente reescreveu o
código, reduzindo a necessidade de uso de IA e tornando tudo bem mais ágil.
É claro que essa tecnologia não está pronta.
Mas o que descobri, nestas últimas duas semanas, é que, com o que temos já
hoje, posso escrever software como se fosse um programador bem experiente. E
não é difícil. Só que vai além. O mundo está por um fio de ter agentes
realmente autônomos. Programas de computador que resolvem o que você desejar na
internet. Que escrevem, por si sós, os sistemas necessários para executar
exatamente a tarefa que você pedir. Do seu jeito.
Isso já existe — tenho um instalado na minha
casa. E sou um jornalista que não escreve código desde o século passado. Um camarada
de humanas. Sim, hoje isso ainda é uma aventura. Não daria acesso ao meu
computador. No máximo a R$ 200, como experiência. (Não parece, ainda, lá muito
bom como investidor.)
Mas o mundo digital mudou de patamar. E isso,
fatalmente, transformará o mundo físico.

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