O Globo
O presidente do STF, ministro Edson Fachin,
abriu o ano judiciário com um discurso sereno e firme, sem jactâncias nem
dramaticidade
O presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), ministro Edson Fachin, abriu o ano judiciário com um discurso sereno e
firme, sem jactâncias nem dramaticidade, mas reafirmando posições e
necessidades exigidas, segundo ele, por “momentos de adversidade”:
— Fidelidade absoluta à Constituição da República e respeito à liberdade de expressão e de imprensa, que não são concessões, uma vez que estruturam o debate público e oxigenam a democracia. A crítica republicana não é mesmo ameaça à democracia.
Essa referência à liberdade de expressão e de
imprensa logo no início da fala esclarece um mal-entendido provocado por ele
mesmo na nota oficial em que, ao defender a instituição do Supremo, deixou no
ar uma ameaça de que a História cobraria as posições de quem hoje critica o
Supremo, alegando que “quem tenta desmoralizar o Supremo” ataca “o coração da
própria democracia”. Talvez para esclarecer ainda mais sua posição, Fachin
iniciou e encerrou seu discurso relembrando o nome de ministros do Supremo que,
na ditadura cívico-militar de 1964, foram cassados por suas posições e hoje são
reconhecidos pela História: Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e
Silva.
Noutro momento do discurso, Fachin admitiu
que o protagonismo do STF “tem seus ônus e efeitos para a legitimidade
institucional. Os ministros respondem pelas escolhas que fazem. As decisões que
tomamos, os casos que priorizamos, a forma como nos comunicamos — tudo isso
importa”. Ele definiu o atual momento da seguinte maneira:
— Quando esses canais saturam, quando a
fragmentação partidária impede a formação de maiorias estáveis, quando o custo
de governabilidade se torna proibitivo, quando a responsividade do sistema
representativo cai abaixo de um limiar mínimo, quando a confiança nas
instituições representativas se erode, a pressão não desaparece. Ela se
desloca.
Fachin acha que “já chegou a hora de o
tribunal sinalizar, por seus próprios atos, que o momento é outro”. “A fase
agora é da retomada plena da construção institucional de longo prazo”, afirmou.
Na sua visão, “o Supremo foi impulsionado e
ao mesmo tempo colocou-se em direção ao centro do sistema institucional das
decisões do Estado Democrático de Direito”. Apesar de atuações fundamentais
para a defesa da democracia, ele considera que “o momento histórico é também de
ponderações e de autocorreção. É hora de um reencontro com o sentido essencial
da República, da tripartição real de Poderes e da convivência harmônica e
independente, com equilíbrio institucional”. A partir do conceito de
autocorreção, Fachin reforçou que “unidade não significa unanimidade”,
reconhecendo haver resistências internas para a adoção de um Código de Ética
para o Tribunal, que reafirmou ser o projeto de sua gestão.
Aproveitou para agradecer à ministra Cármen
Lúcia por ter aceitado ser a relatora desse projeto, pois afirmou que busca dar
à sociedade brasileira “segurança jurídica com legitimidade”. Resumiu assim os
principais pontos de seu projeto: 1) transparência, integridade e diálogo
institucional; 2) divergência democrática como elemento legítimo da vida
constitucional; 3) centralidade da legalidade constitucional como linguagem
comum entre os Poderes; 4) direitos humanos e segurança como eixos da
democracia constitucional; 5) Atuação do STF marcada por responsabilidade e
segurança jurídica; 6) Eficiência, inovação e sustentabilidade.
No ponto sobre direitos humanos, Fachin
parece ter escolhido a palavra “segurança” para esclarecer que não é contra a
ação policial, como muitos alegaram a partir de sua determinação de que a
subida das forças policiais nas favelas teria de obedecer a uma série de
cuidados preventivos. Fez questão também de afirmar que “nos processos, as
dúvidas sobre conflitos de interesses devem ser tratadas sempre com
transparência”. E advertiu:
— Ninguém cogite que possa ser diferente numa
sociedade republicana como a nossa.

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