quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Mudança e esperança. Por William Waack

O Estado de S. Paulo

O Centrão, e o que ele significa, já garantiu vitória na eleição presidencial deste ano

O Brasil está dedicado a um curioso experimento político para provar que tudo funciona mesmo sem qualquer sentido de urgência e de vergonha. Os rituais da política não parecem levar em conta que o tempo vai agravando questões fundamentais como a das contas públicas. Ou da falta de crescimento.

O senso de pudor permanece no comportamento de alguns agentes nos três Poderes, mas em número insuficiente para compensar o corporativismo que é a marca mais evidente de um sistema político e de governo visto pelo grande público como dedicado a si mesmo. É zero a probabilidade de que isso se altere de dentro para fora.

É ilustrativo como o mundo político em Brasília antecipa o que acontecerá em relação às contas públicas nas próximas eleições. Caso o vencedor seja Lula e seu grupo, haverá ajustes graduais dedicados apenas a evitar as consequências imediatas mais danosas da longa trajetória de déficits primários e consequente aumento da dívida pública, supõe-se.

Caso vença a oposição e seu grupo, haverá ajustes mais abrangentes, mas vão passar longe de qualquer trauma político, acredita-se. Que seria mesmo profundo caso alguém pense em realizar o ajuste de 4% do PIB (uns R$ 400 bilhões) tido como necessário por alguns economistas, e como impossível pela “classe” política.

Pois o “grupo” que seria eleito com Lula é o mesmo “grupo” que seria eleito com a oposição. O que se convencionou chamar de “Centrão” se trata, na verdade, desta tóxica (em termos de perspectivas para as próximas gerações) mescla de corporativismo e patrimonialismo, agravada pelo peso das oligarquias políticas e econômicas regionais, que estão se solidificando.

Nesse sentido, as negociações para a reforma tributária e, mais recentemente, para definir um corte linear de benefícios fiscais foram aulas magnas de antropologia sobre Estado e sociedade brasileiros. Traduzido: o triunfo das partes sobre o todo, a vitória dos interesses particulares políticos e privados.

Passa longe dessa maçaroca ideológica qualquer noção de conjunto em relação ao País, uma espécie de denominador comum das siglas do Centrão. Os traços que unem Congresso (o locus geográfico do Centrão) e Judiciário (locus geográfico do STF) são, em boa parte, a defesa dos privilégios de seus integrantes, e de suas respectivas condutas, cada vez menos preocupadas com pudores. É esse o significado abrangente do escândalo do Master.

Tornando tão peculiar neste momento o clima geral em relação às eleições. É o de forte desejo de mudança, e poucas esperanças. •

 

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