Folha de S. Paulo
Erro de grafia no quadro escolar foi
protagonizado por monitor do modelo cívico-militar
Ensino cívico-militar apenas ensina alunos a
respeitar autoridade sem questioná-la
Nesta semana, alunos
de uma escola estadual de Caçapava, no interior de São Paulo,
aprenderam, além de comandos militares, a escrever errado as palavras
"descansar" e "continência" —na lousa, viam
"descançar" e "continêcia".
O erro de grafia no quadro escolar, capturado em vídeo, foi protagonizado por um dos monitores do modelo cívico-militar, no primeiro dia de implementação do programa. Nem os comandos militares, nem os erros de grafia caem no Enem, há de ser registrado.
A resposta da pasta estadual de Educação diante
do vexame foi pior que o episódio em si. Para a secretaria estadual, os
monitores não atuarão em sala de aula, mas, sim, no reforço da disciplina, do
respeito e dos valores cívicos. Ou seja, o governo Tarcísio
de Freitas (Republicanos) retira 208 policiais militares da
aposentadoria e paga uma bolsa-PM de R$ 301,70 por dia para que estes, entre
outras coisas, controlem o corte de cabelo dos alunos, fiscalizem seus
uniformes, os organizem em filas e os façam cantar o Hino Nacional.
Parte dos familiares é a favor das escolas
cívico-militares. A razão, em geral, é a disciplina escolar. Mas é importante
separar o joio do trigo.
Professores tampouco são a favor de um
ambiente escolar em que a desordem impere. Mas coisa bem diferente é gastar R$
17 milhões ao ano para que militares, em geral sem educação superior, executem
funções para as quais não têm formação. Tarcísio precisa explicar aos pais de
alunos mais pobres por que prefere gastar R$ 17 milhões com militares do que
com o futuro de seus filhos.
O ensino cívico-militar serve apenas para
amedrontar alunos e ensiná-los a respeitar autoridade sem questioná-la,
habilidade esta útil apenas para formar a mão de obra barata de ditaduras.
Se, como os liberais, o leitor crê que o alvo
da educação é formar os melhores profissionais para o mercado, deve pensar que
o foco precisa estar na inovação e na excelência individual, não na
subserviência. E se, como os progressistas, vê a educação como caminho para a
liberdade, sabe que aquilo que liberta as pessoas é o pensamento crítico, não
um cassetete sobre suas cabeças.

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