O Globo
O presidente dos Estados Unidos alveja os
três paradigmas da ordem do Pós-Guerra
“Mais de 80 anos após o início da construção, a ordem internacional pós-1945 liderada pelos Estados Unidos encontra-se, agora, sob demolição.” O diagnóstico é do Relatório de Segurança de Munique, texto-base para a conferência que reúne, desde 1963, autoridades e especialistas de mais de 70 países. O mais destacado “demolidor”, de acordo com o relatório, não é Xi Jinping ou Vladimir Putin, mas Donald Trump.
O presidente dos Estados Unidos alveja os
três paradigmas da ordem do Pós-Guerra: a segurança baseada em instituições
multilaterais, a paz amparada na integração econômica e a descrição dos
direitos humanos como ativo estratégico. Debatia-se, uma década atrás, se
a China transformara-se
em “potência insatisfeita”, engajada na contestação da Pax Americana. Hoje, poucos
duvidam que a principal “potência insatisfeita” são os Estados Unidos. China
e Rússia operam
em meio às ruínas que se acumulam no rastro de Trump.
Na Conferência de Munique do ano passado,
J.D. Vance anunciou a cisão dos Estados Unidos com seus aliados europeus. Seu
discurso apontou o “apagamento civilizacional” da Europa, que só poderia ser
contido pela hipotética ascensão ao poder dos partidos da direita nacionalista
alinhados a Trump. Depois daquele choque retórico, Washington aplicou tarifas
contra Europa e Canadá,
ofereceu apoio às exigências de Putin de capitulação da Ucrânia e,
finalmente, ameaçou anexar a Groenlândia.
Desde 1945, a segurança europeia repousa
sobre a aliança militar com os Estados Unidos. O Artigo 5º da Otan materializa
o compromisso de defesa comum contra uma agressão estrangeira. No papel, a
promessa persiste; na prática, foi envenenada pelo ácido da desconfiança.
Segundo o relatório, as ações do governo americano conduzem a “um mundo
esculpido por acordos transacionais, no lugar de cooperação em torno de
princípios”. De olho na Ucrânia, Putin identificou em Trump um proverbial
“idiota útil”, na expressão celebrizada por Lênin. A China, de olho em Taiwan,
pressente uma oportunidade histórica.
O “demolidor” acendeu as luzes de alarme no
Velho Mundo. O francês Macron concedeu entrevista de alto perfil declarando um
“estado de emergência europeu”. A Europa descobre-se sob duplo assédio: de um
lado, as tarifas de Trump; de outro, uma invasão de bens baratos oriundos da
China. Tudo isso, na hora de uma aventura militar russa que, diante da traição
de Washington, poderia estender seus tentáculos aos países bálticos e à Polônia. A saída
imaginada por Macron é usar o “momento Groenlândia” para impulsionar a União
Europeia (UE) à condição de potência geopolítica global. A UE é uma potência
financeira e comercial. Segundo a receita francesa, seria preciso mobilizar
seus recursos econômicos, por meio de emissão de dívida conjunta, numa
ambiciosa modernização industrial e tecnológica.
O projeto envolveria pesados investimentos em
inteligência artificial e computação quântica. Nos últimos anos, a Europa
trocou a dependência do gás natural russo pela do gás liquefeito americano. O
esforço abrangeria a aceleração da transição energética destinada a atenuar a
dependência externa. A Otan converteu-se em incerteza perene. Os europeus
teriam de financiar uma indústria de guerra autônoma e criar mecanismos de
defesa comum.
Desde os tempos de De Gaulle, a França nutre a
ideia de uma Europa mais autônoma diante dos Estados Unidos no plano
geopolítico — e, claro, sob liderança francesa. O obstáculo de fundo está na
própria natureza da UE, que não é um Estado e nasceu para perpetuar a paz. A
Europa é de Vênus, não de Marte — mas, ante a “demolição” da Pax Americana,
precisa abraçar o deus da guerra.
Há, ainda, um obstáculo conjuntural. O Macron
que conclama à ação é um presidente impopular, às voltas com a oposição
ascendente de um partido da direita nacionalista atraído por Trump e Putin.
Mais: na Alemanha,
parceiro indispensável, o governo de Friedrich Merz também rema contra a
corrente da opinião pública. Macron qualifica o governo Trump como “abertamente
hostil” à Europa e engajado no “desmembramento” da UE. Entre a constatação e a
solução, porém, estende-se um largo abismo.

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