O Globo
Investimentos que estavam nos Estados Unidos
começaram a procurar mercados mais lucrativos
A gente nem lembra, mas 8 de abril do ano passado foi um dia terrível para os mercados do mundo todo. No Brasil, a Bolsa despencou para 124 mil pontos e o dólar escalou para R$ 6. Nos Estados Unidos, os índices acionários também foram ao fundo do poço. O Nasdaq fechou perto dos 15 mil pontos, queda de 22% em relação ao início do ano. Desse dia em diante, tudo melhorou. Na semana passada, o Nasdaq passou dos 23 mil pontos. Por aqui, não foi diferente. O Ibovespa chegou a 190 mil pontos na semana passada, recorde histórico. E o dólar chegou a ser negociado a R$ 5,15.
O 8 de abril do ano passado foi o momento em
que o mundo sentiu o risco Donald Trump e temeu pelo pior. O pior, no caso,
seria uma guerra tarifária reduzindo o comércio e, pois, o crescimento global.
A perda de valor não ocorreu apenas nos mercados financeiros. O preço das
commodities caiu. O barril de petróleo, com forte volatilidade, encostou nos
US$ 60. Trump tinha acabado de anunciar suas altíssimas tarifas contra o mundo
todo, mas especialmente contra a China, segunda potência global. Pequim, claro,
retaliou, mostrando o risco: se as duas maiores potências param de crescer,
todo o mundo sofre. O Brasi tem na China seu maior parceiro.
O dilema estava posto: qual o caminho
correto? Brigar ou tentar negociar com um instável, ilógico e imperialista
Trump? O tempo e a paciência de muitos governantes foram ajeitando as coisas.
Foi como se, a partir de 8 de abril, o pessoal tivesse chegado à conclusão de
que o mundo não poderia ficar pior do que já estava.
Trump reduziu tarifas, ao perceber que um dos
seus efeitos era elevar o preço de produtos consumidos pelos americanos. Abriu
conversas que pareciam improváveis, inclusive com a China. E com o Brasil.
Depois de ser taxado com tarifas punitivas por razões políticas, o Brasil
conseguiu bom alívio depois da, também inesperada, tal química entre Trump e
Lula. Não que o risco Trump tenha saído do cenário. As tarifas continuam sendo
instrumento de poder e de transtorno para o comércio global. Ameaças
geopolíticas permanecem na praça, como a vontade de comprar ou anexar a
Groenlândia, que abriria grave crise com a União Europeia.
Nos Estados Unidos, Trump continua ameaçando
a autonomia do Federal Reserve (Fed, o banco central), uma espécie de polo
regulador da economia global. Ofende e ameaça seus adversários, pratica
violenta política de caça a imigrantes, persegue empresas e executivos que não
o seguem e ataca a imprensa. Tudo considerado, o melhor não está à vista, mas o
mundo não acabou.
De todo modo, o risco Trump teve um efeito
inverso no mundo. Diante da instabilidade nos Estados Unidos, investimentos que
estavam lá bem instalados começaram a procurar mercados mais lucrativos com um
mínimo de estabilidade. Choveu dinheiro nos mercados emergentes. No ano
passado, a Bolsa brasileira recebeu algo como R$ 25 bilhões de investidores
estrangeiros. Só em janeiro último, a entrada foi superior a R$ 30 bilhões — o
que explica os 190 mil pontos do Ibovespa.
As bolsas da Coreia do Sul e do Peru foram as
que mais subiram. Mas também houve altas expressivas em países como Chile ou
Colômbia, que têm governos de esquerda, tão atacados por Trump. E a cotação do
dólar caiu no mundo inteiro. Claro. Se investidores tiram dólares dos Estados
Unidos, a moeda americana se enfraquece e se desvaloriza. Vide o caso do real.
Faz sentido fazer a outra pergunta. Se o
dólar se desvaloriza, se a autonomia do sagrado Fed é ameaçada, se o risco
Trump está lá, como é possível a economia americana continuar crescendo e as bolsas
registrarem forte alta? Ocorre que há muito dinheiro nos Estados Unidos.
Calcula-se que 70% do capital global esteja alocado em fundos de investimentos
no mercado americano. E 6% nos emergentes. Um pouco que saia de lá faz uma
baita diferença para os emergentes, mas não empobrece o mercado americano. É o
ponto em que estamos.

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