Folha de S. Paulo
Questionada pelo STF, gratificação faroeste
remete aos cartazes de 'vivo ou morto'
'Narcoterroristas' é a senha para quem espera
uma intervenção de Trump no país
As romarias ao presídio de El Salvador —custeadas com dinheiro público, a última contagem estava em R$ 400 mil— são a principal diversão de deputados, senadores e governadores da extrema direita. Com encarcerados no segundo plano, o registro fotográfico é indispensável à lacração nas redes. Alguns deles aparecem de braços cruzados e camisetas justas no melhor estilo "mamãe, sou forte".
Outra distração é copiar terminologias e
cometer análises geopolíticas. Desde a megaoperação nos complexos do Alemão e da
Penha, a mais letal da história, não existem mais traficantes nem
milicianos no Brasil. Todos são chamados de "narcoterroristas",
denominação adotada por Donald Trump e Nayib Bukele, o presidente salvadorenho
que governa em regime de exceção.
Tema que mais preocupa a sociedade, o combate
a facções criminosas não é mais considerado uma atribuição dos governos
estaduais ou do Planalto, mas equiparado a uma guerra sem quartel —daí surgindo
a proposta servil de uma intervenção trumpista no país.
Na novilíngua, matar é
"neutralizar". O verbo está no projeto de lei aprovado pela
Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro —e questionado pelo ministro Alexandre
de Moraes, do STF—
que prevê bônus de 10% a 150% do salário para policiais civis envolvidos em
confrontos com mortes. A gratificação faroeste, que remete aos cartazes de
"procurado vivo ou morto", já vigorou entre 1995 e 1998, durante o
governo Marcello Alencar. A média de mortes em ações policiais dobrou, e a
criminalidade não deixou de crescer.
Num jogo de cena, Cláudio
Castro alegou falta de verbas e vetou a proposta —veto
derrubado no plenário. No entanto, anunciou a compra de fuzis, metralhadoras,
drones, robôs táticos e até um helicóptero Black Hawk, com preço estimado em R$
72 milhões.
O governador —que só agora apresentou um
plano para recuperar áreas dominadas, aliás um plano bastante tímido— parece
não se conformar de o Rio perder para São Paulo no campeonato de número de
mortes causadas pela polícia.
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